Consciência, sustentabilidade e a crise financeira

Estas três palavras poderiam ser, isoladamente ou em conjunto, temas de um vasto estudo ou de um congresso; quem sabe gerariam um livro, ou, em um mundo dinâmico e multimídia, apenas um podcast para ser ouvido durante o trajeto casa-escritório.

A ordem das palavras no título está intencionalmente invertida, pois há uma intenção objetiva nesta inversão. Vamos pensar juntos.

Nos últimos meses, a sentença mais decretada, lida e ouvida em todo o globo tem sido “crise financeira”. Todos sabemos, porém, mesmo que superficialmente, a origem desta crise: títulos “podres” da bolha do mercado imobiliário americano e a ação criminosa de agências de classificação do mercado financeiro, que elevaram sem consistência os valores reais destes títulos.

Entretanto, no mundo das teorias conspiratórias, as razões desta crise são muito mais complexas do que as veiculadas, ou seja, de que o mundo entrou em colapso financeiro devido ao fato de alguns milhares de americanos não conseguirem efetivamente quitar suas hipotecas, e, conseqüentemente, desencadearem o processo de inadimplência coletiva e perda de confiança. Na verdade, vimos como a oferta de crédito mantém dependentes aqueles que precisam de capital para crescer e se desenvolver de forma insustentável, remunerando este capital adiantado na forma de juros para aqueles que controlam a riqueza do planeta, ou seja, instituições financeiras e bolsas de valores.

Falar em crise hoje — tendo em mãos os dados apresentados por Donella Meadows¹ , promovidos pelo Sustainability Institute² — lembra-nos, não este mundo fantasioso apresentado a sete ventos pela mídia e pelo modelo político e econômico mundial vigente, mas um mundo bem real e cruel, aonde, a cada 100 pessoas, 43 vivem sem saneamento básico, 18 sem água potável, 13 passam fome, 14 não sabem ler e 53 vivem com menos de 2,00 u$ por dia.

É no mínimo indelicado, portanto, falar insistentemente sobre mais essa atual crise financeira, quando vivemos há séculos uma crise crônica da humanidade. Parecemos viver um eterno ensaio sobre a cegueira.
Falemos, então, sobre o outro tópico desse nosso bate-papo: a sustentabilidade.

Temos mais de 20 anos desde a origem do termo “desenvolvimento sustentável”, apresentado pelo Relatório Brundtland³ — só para lembrar, desenvolvimento sustentável é definido como um conjunto de processos e atitudes que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de que as gerações futuras satisfaçam as suas próprias necessidades. Este me parece um tempo razoável para entendermos que a mudança é necessária e que, sim, podemos consegui-la. Entretanto o iceberg do colapso mundial se aproxima e o mundo parece não se mobilizar como deveria para encontrar o rumo certo. Precisamos, então — neste caso, o mundo precisou — que o primeiro negro viesse a se eleger para governar a nação mais rica e poderosa do planeta, aquela que dita o caminho e a tendência mundial, com seu slogan de campanha: Change we need! Yes, we can.

Gostaria que as pessoas pudessem captar a verdadeira essência desse slogan e dessa mensagem. Entretanto, com o atual modelo econômico e de desenvolvimento preponderante no mundo, sabemos que teremos muito trabalho pela frente até equilibrar os aspectos econômico, ambiental e social, que formam o tripé da sustentabilidade. E, para tanto, é necessário dizer, afirmar e repetir: Change we need! Yes we can!

Agora, a parte mais difícil. Conseguiremos somente pela consciência, ou seja, somente pelo conhecimento das razões pela qual a sustentabilidade é virtualmente o caminho que possibilitará a continuidade de um desenvolvimento humano, no que diz respeito à possibilidade de uma existência saudável e feliz, vivendo em uma cidade, numa metrópole ou ainda em nossas megalópoles. O caminho até a ecópolis — equilibrada, saudável, viável, ou seja, sustentável — vem acontecendo. A sociedade pede isso de diferentes formas, mas o mercado e o estado por vezes se fazem de surdos e oferecem parcas opções, e desde que todas tragam retorno imediato.

Mas e quanto à crise? Apenas mais um sinal de que a mudança do paradigma de desenvolvimento econômico é necessária. O “american way of life” deve ser substituído pelo “world way of life”. O pensamento e as ações em busca de um bem coletivo devem ser promovidos. São inúmeros os movimentos, personalidades, comunidades, e até nações, que começaram a despertar efetivamente. No entanto, somente a consciência torna possível a mudança; caso contrário, sustentabilidade será apenas mais uma moda, uma rajada.

Portanto, chegou o momento.

Conheça! E mude!



¹ Donella Meadows é Ph.D. em Biofísica pela Harvard University e um dos mais influentes pensadores do ambiente do século XX.

² Sustainability Institute é um instituto de pesquisa em sistemas globais, com demonstrações práticas de vida sustentável, fundado por Donella Meadows.

³ Em 1987, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) da Organização das Nações Unidas, presidida pela Primeira-Ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, adotou o conceito de Desenvolvimento Sustentável em seu relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum), também conhecido como Relatório Brundtland.