Mudanças vão dar nova cara para Gafisa e para a Tenda

Sandro Gamba, à esquerda, e Rodrigo Osmo, que assumem presidências das divisões Gafisa e Tenda: novos desafios e otimismo com o mercado neste ano.

Pouco mais de cinco anos depois de ter comprado a Tenda - empresa que contribuiu, em larga escala, para estouros de orçamento e cancelamentos de venda de imóveis -, a Gafisa sinalizou, na última sexta-feira, que fará a cisão societária das duas operações em 2015, quando a divisão de baixa renda voltará a ter ações negociadas em bolsa. A preparação para essa mudança ocorrerá ao longo de 2014, com a reestruturação administrativa da companhia, em que o chamado backoffice, que inclui contas a pagar, a receber, controladoria e contabilidade, das duas divisões será separado.

Há mais de dois anos, os negócios das duas divisões já eram conduzidos separadamente, mas os responsáveis por cada uma delas - Sandro Gamba, na Gafisa, e Rodrigo Osmo, na Tenda -, se reportavam ao presidente da companhia, Duilio Calciolari. Em até 90 dias, Gamba e Osmo deixarão de ser diretores-executivos de Gafisa e Tenda e se tornarão presidentes das duas empresas, respectivamente. A substituição de Calciolari por Gamba foi antecipada pelo Valor PRO, serviço de notícias em tempo real do Valor, em 27 de novembro.

Até que a reestruturação societária ocorra, a Tenda continuará a ser uma divisão da Gafisa, mas Osmo terá de se reportar apenas ao conselho de administração da companhia e não a Gamba. Calciolari vai coordenar a separação do backoffice das duas divisões e poderá ocupar uma vaga no conselho da Gafisa, na eleição de abril.

A separação de Gafisa e Tenda tem como objetivo dar mais visibilidade a cada negócio. "A separação administrativa de Gafisa e Tenda possibilita gerar valor para as empresas e para os acionistas", disse o diretor financeiro e de relações com investidores da companhia, André Bergstein. O Rothschild vai assessorar a companhia nos estudos para a potencial separação.

A intenção é que, em 2015, cada acionista da Gafisa receba uma ação da Tenda, de acordo com Calciolari. "O valor de cada papel vai depender do mercado", disse Bergstein. A Tenda tem registro de companhia aberta na BM&FBovespa, mas não tem ações negociadas. No formato de cisão considerado, as duas empresas terão a mesma base acionária, num primeiro momento, e depois, os investidores escolherão se querem apostar na baixa renda, na alta renda ou em ambas, conforme sua preferência.

De acordo com Calciolari, o movimento de separação de Gafisa e Tenda é uma "volta ao passado" e não há intenção de vender a divisão de baixa renda.

A Gafisa comprou o controle da Tenda em 1º de setembro de 2008, quando ficou com 60% do capital votante. Posteriormente, passou a deter 100% da Tenda e as operações da controlada foram incorporadas. Na época da aquisição, Osmo era diretor de desenvolvimento de novos negócios da Gafisa e conduziu a operação na linha de frente. Segundo ele, apesar dos problemas da Tenda, como o elevado número de distratos, a Gafisa não se arrependeu de ter comprado a empresa. "Imaginamos tudo de ruim que poderia ocorrer, e o preço ainda justificava a aquisição", disse o executivo da Tenda.

Osmo pondera que o momento de fechamento do negócio é que "não foi o melhor". Em setembro de 2008, houve a quebra do Lehmann Brothers, marco do acirramento da crise financeira internacional. Por consequência, a Gafisa não contou com todo o crédito que pensou que a Tenda teria acesso, o que teve impacto em atrasos de obras, segundo o executivo.

O legado dos projetos antigos da Tenda será entregue até o fim do ano. "Até o momento, cerca de 80% a 85% do que foi lançado até 2011 foi concluído", disse Osmo. Antes da reestruturação administrativa, a Tenda tinha o "conforto de não precisar ser auto-suficiente", segundo seu principal executivo. "Agora, a empresa tem de parar em pé por si só", afirmou Osmo.

As metas para as divisões Gafisa e Tenda estão mantidas, mesmo com a reestruturação administrativa que resultará na cisão societária A Gafisa, cujo foco são imóveis de médio e médio-alto padrão nos mercados de São Paulo e do Rio de Janeiro, tem como meta de lançamentos para 2014 a faixa de R$ 1,5 bilhão a R$ 1,7 bilhão. Focada na baixa renda, principalmente na faixa 2 do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, a Tenda mira o patamar de lançamentos de R$ 600 milhões a R$ 800 milhões. Em 2013, Gafisa lançou R$ 1,085 bilhão e Tenda, R$ 339 milhões.

Gamba e Osmo se dizem otimistas com os respectivos mercados de atuação. "O quarto trimestre foi bastante positivo, com velocidade de venda atrativa. Esperamos manter a liquidez em 2014. O que teremos é um calendário mais apertado de lançamentos", disse Gamba. Osmo cita que há cada vez menos concorrência na faixa 2 do programa habitacional. "A atuação na faixa 2 depende menos da expectativa de financiamento e mais do nível de emprego e da massa salarial. Não há indicativo de problemas no curto prazo", disse o diretor-executivo da Tenda.

O anúncio feito pela Gafisa agradou ao mercado. Na sexta-feira, os papéis fecharam com alta de 6,64%, cotados a R$ 3,21 por ação.

Por Chiara Quintão | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico - São Paulo/SP - EMPRESAS - 10/02/2014 - Pág.B3