'O conceito de shopping hoje vai bem além de um centro de compras'

Um complexo multiuso, com torre comercial ou residencial, e um espaço que vai muito além de um centro de compras. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai, o conceito de shopping se transformou e vai mudar ainda mais. "Os shoppings são hoje muito mais lugares de convivência e de conveniência do que de compras", diz. De acordo com dados da associação, 63% das pessoas que vão aos shoppings não têm intenção de comprar. "A compra virou consequência." Para Humai, a próxima fronteira do setor é a convergência entre o comércio físico e o digital.

O comércio online e o atendimento a uma nova geração de consumidores, os 'millennials', têm sido grandes desafios para o varejo. Como os shoppings estão enfrentando essas questões?
A convergência entre o digital e o físico é hoje a grande adequação que o setor precisa fazer. Ter estoque integrado, transformar lojas físicas em centro de distribuição são algumas das soluções que começam a ser colocadas em prática. Sobre os millennials, acabei de voltar de uma discussão nos EUA em que o shopping passa a ser encarado como um centro de engajamento do consumidor, onde ele pode experimentar, se divertir, comprar na hora ou comprar para entregar em casa. Os jovens querem conveniência.

Nos EUA, chegou a se falar sobre a 'morte' dos shoppings, em função de 'empreendimentos fantasmas', que acabaram abandonados nos últimos anos. No Brasil, há alguma discussão parecida? 
São realidades muito diferentes. Primeiro, em escala. Aqui, temos apenas 570 shoppings, contra mais de 13 mil no mercado americano. Lá, além da convergência entre o varejo físico e online, as questões passam por urbanização dos shoppings (a maioria está em lugares distantes das cidades) e a incorporação de opções de lazer e entretenimento. Nossos shoppings, por sua vez, já nasceram dentro das cidades e como espaços de entretenimento. Hoje, 70% dos cinemas do Brasil estão nos shoppings, que também reúnem teatros, serviços e vários tipos de restaurantes. Esse mix, aliás, nos ajudou a passar melhor pela crise que o País atravessou nos últimos anos.

Qual foi o impacto da crise para o setor e qual o horizonte para 2018? 
Reduzimos o ritmo de crescimento nas vendas, mas não chegamos a registrar perdas. Este ano está difícil, principalmente nas cidades no interior. Estados que vivem crise fiscal, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, também estão sentindo. Mas acreditamos que devemos avançar 6% nas vendas, a mesma expansão do ano passado.

Fonte: O Estado de S. Paulo, Primeira Pessoa, 11/06/2018