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A mulher na construção
civil
O que você faz na construção civil?
Dou consultoria em Desenvolvimento Organizacional.
Como você, uma psicóloga, escolheu a construção civil
para atuar?
Foi uma incrível coincidência: mudei para Brasília em 1989
e recebi um convite para elaborar um projeto de atendimento
ao cliente para a Matriz da Encol S/A , o que deu origem a
uma parceria que durou 6 anos. Minha idéia era continuar na
área clínica da psicologia, dentro da minha especialidade
que era recuperação de toxicômanos, mas esse contato com a
Encol me fez dar uma "guinada" completa, principalmente quando
percebi como o setor da construção civil era carente de profissionais
especializados em RH e DO.
Você sentiu o preconceito por ser mulher e psicóloga num
ambiente onde, nem sempre, isso é valorizado? Se sentiu, o
que fez para sobressair? Quais foram as maiores dificuldades?
Senti, sim. A maior dificuldade era convencer os empresários
de que deveriam investir em desenvolvimento da mão-de-obra.
O que fiz para me sobressair foi elaborar e implantar projetos
arrojados, que só conseguia aprovar junto à Diretoria após
apresentar uma análise muito bem fundamentada de custo/benefício
de cada ação. Foi assim que conseguimos reduzir o absenteísmo,
aumentar em até 30% a produtividade das equipes de trabalho,
principalmente as de obra fina, implantar escolas de alfabetização
em cada canteiro de obra, etc.
Desde o início da sua carreira, como você retrata a mulher
nas mais variadas funções dentro da construção civil?
Tenho tido a sorte de encontrar mulheres brilhantes atuando
na construção civil, engenheiras e arquitetas que ocupam funções
relevantes de comando. O que se percebe é que a mulher, embora
em número muito inferior, exerce uma liderança extremamente
eficaz, inclusive nos canteiros de obra. Quanto às funções
operacionais, conheci construtoras que se "atreveram" a colocar
mulheres operárias e tiveram uma grata surpresa: são mais
produtivas e trabalham com um nível de terminalidade dos serviços
superior aos dos seus colegas do sexo masculino.
Você acha que tem aumentado o nº de mulheres no setor?
Sim. Empresas construtoras definitivamente "machistas" até
pouco tempo atrás, estão se rendendo ao fato de que a mulher
consegue liderar equipes de trabalho com maior eficácia. Apesar
de ter a mesma formação escolar dos homens (carente absolutamente
de qualquer informação sequer sobre recursos humanos e gestão
de equipes), consegue se sair melhor, provavelmente em função
do que hoje chamamos de inteligência emocional e intuição.
A mulher consegue, na maioria dos casos, fazer um uso mais
equilibrado dos dois hemisférios cerebrais, e isso lhe confere
uma competitividade maior.
Como você vê o perfil da psicóloga na construção civil?
Esta é uma pergunta complicada, mesmo porque há poucas profissionais
trabalhando nesta área, sendo que a maioria delas se dedica
a funções burocráticas do chamado departamento de Rh. Não
conheço, infelizmente, psicólogas que trabalhem com Desenvolvimento
Organizacional na construção civil.
No meu entender, o perfil deve ser o de uma profissional extremamente
objetiva, que consiga analisar os problemas e propor soluções
dentro dos parâmetros passíveis de aceitação por parte do
contratante. Tem que ser uma psicóloga que pense como uma
engenheira, ou seja: que tenha uma grande capacidade de empatia,
para poder "vender" seus projetos se colocando sempre no lugar
do engenheiro.
Quais as tendências da área de RH dentro da construção
civil nos próximos anos?
Acredito que a tendência é atuar como coadjuvante e facilitadora
dentro do processo de gestão da qualidade e implantação das
novas tecnologias construtivas. O velho RH, aquele departamento
estanque e burocrático que se confunde a toda hora com o Departamento
de Pessoal já não tem mais lugar nas empresas de hoje.
Em qual área da construção você acha que a mulher consegue
maior destaque?
Atualmente, na área de projetos e planejamento. Acredito que
no futuro haverá mulheres exercendo papéis de maior destaque
dentro das organizações, principalmente nas áreas de comercialização
e empreendimento.
Na sua opinião, a frase "a mulher deve trabalhar o dobro
do homem para ser respeitada" é verdadeira?
Creio que ainda existem setores da economia em que isto é
uma realidade, infelizmente. Mas houve uma evolução marcante
com relação ao respeito conquistado pelas profissionais em
vários setores, como o financeiro por exemplo. Além do mais,
respeito e credibilidade são atributos que se conquistam,
não é mesmo? E a mulher está acostumada a lutar para conquistar
tudo, historicamente, por isso considero um desafio interessante
esse de ter que demonstrar a todo instante que você é capaz.
Que recado você mandaria para as mulheres que estão ingressando
agora no setor?
Que concentrem os seus esforços nas atividades destinadas
a humanizar o ambiente de trabalho, principalmente nos canteiros
de obra. A industrialização da construção civil é um fato,
e precisamos nos preparar para isso. Se compararmos hoje os
nossos canteiros com os dos países que já trabalham com processos
industriais de construção, veremos rapidamente o que precisa
ser feito aqui. Tal vez seja essa uma área de atuação em que
a mulher poderá ter um destaque surpreendente no nosso setor.
Fonte: NaObra.com
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