A cidade é um caos, e a minha empresa com isso?

* Por Saulo de Lara Rozendo - Consultor CTE

Quem mora e trabalha nas grandes cidades brasileiras tem a sensação de que elas possuem muitos problemas, cada vez mais confusos e desconexos. O que se nota em geral é que o trânsito não melhora em dias de chuva, a violência não diminui nas ruas mal iluminadas e esburacadas, ou ainda, os políticos não limitam as condições insustentáveis de vida urbana. Existe relação entre tantos problemas? Uma maneira de perceber a relação deles é questionando a cidade sob um olhar clínico. Assim, serão percebidas as lesões em um ser vivo de 170 milhões de células humanas, 80% delas em tecidos urbanos.

Nos idos de 1960, o químico inglês James Lovelock propôs uma teoria na qual o planeta se comporta como um ser vivo. Assim, ele possui características e comportamentos próprios, sendo o homo sapiens apenas um de seus elementos. Podemos interpretar essa teoria para os continentes e seus agrupamentos humanos, consolidados e massificados nas grandes cidades. Ao se deparar com a gestão de tais agrupamentos, estaremos todos diante de uma responsabilidade imensa: decidir e conduzir a vida e os negócios em total sinergia com os elementos da natureza que os cercam: ar, água, solo, minério e energia. Para Lovelock, isso se chama "fisiologia urbana".

Somos todos responsáveis por manter o "ser vivo": em nossas atividades, ao tomar decisões, ao provocar, permitir ou prevenir a degradação dos elementos naturais. Somos responsáveis como cidadãos, mas como empresários também. Nossas empresas funcionam com regras claras de competitividade e lucratividade, com foco no cliente. Interpretar essa realidade à luz da teoria de Lovelock (batizada de teoria de Gaia) torna-se, portanto, imperativo.

Para tanto, recorremos ao princípio de "entrada-processo-saída". Boa parte das empresas do setor da construção funciona assim. Neste caso, visualizamos "entradas" como energia elétrica, minério de ferro, combustível, madeira, areia, entre outras tantas necessidades para as obras. Os processos são os mesmos, desde a prospecção de mercado, passando pela incorporação, projetos, aprovação legal, compra, transporte e uso de materiais, execução de serviços em obra, até o uso e ocupação dos empreendimentos. As saídas são as mais variadas e refletem o quanto o produto gerado modifica os elementos naturais, tais como a erosão e o assoreamento de rios, a contaminação do solo e da água, a presença ou a ausência de espécies vegetais e animais nos empreendimentos executados. Na medida em que os empresários gerenciam as entradas e trabalham de forma pró-ativa com as saídas, torna-se transparente o envolvimento deles com uma cidade que é capaz de se sustentar.

As empresas que apresentam tal postura não se apresentam usando os méritos ambientais ou os ganhos em função de novas oportunidades. Na verdade, é a própria cidade (leia-se mercado consumidor e mídia) que as reconhecem por manterem o "ser vivo", e não promoverem o contrário. É como reconhecer o criador da penicilina, não o criador da gripe. É como se um filho nosso chegasse em casa com uma ferida no joelho (daquelas que rasgam o uniforme escolar) e tivéssemos um curativo em mãos para a ferida. Poucos ficariam se lamentando com o filho sobre o caos que é aparecer sempre com uma ferida, enquanto ela sangra constantemente. Outros muitos decidiriam imediatamente, "sou responsável pela ferida de meu filho, por isso usarei um curativo". As possíveis e prováveis dores serviriam de lição para evitar as feridas futuras.

Portanto, a empresa do setor da construção que souber preservar os elementos naturais em condições adequadas e equilibradas nas cidades saberá crescer no seu mercado, diante dos clientes atuais e futuros. Considerar a cidade caótica é, por assim dizer, assumir que só se conhecem as feridas expostas. Considerar a gestão de seus negócios é oferecer um curativo, e perceber a diferença.

 

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Quinta, 29/7/2010