Entrave à qualidade

No setor da construção civil, é crescente o movimento em busca da qualidade e de certificações. Um dos principais entraves das construtoras que estão nesse caminho diz respeito à qualidade dos materiais disponíveis. Entendendo que cabe às construtoras a adoção de uma série de procedimentos em relação ao fornecimento do material de construção, visando garantir a qualidade do material que irão constituir a obra, os engenheiros Roberto de Souza e Marcos Roberto Tamaki elaboraram "Especificação e Recebimento de Materiais de Construção", uma publicação promovida pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), CNI (Confederação Nacional da Indústria) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/DN). "A idéia era escrever algo que pudesse ser aplicado a todos os tipos de empresas usuárias dos insumos e produtos da construção, não somente construtoras, mas também empreiteiros, sub-empreiteiros, consumidores particulares, construtoras de imóveis de baixa renda, média e alta renda, construtoras de padrão alto luxo e construtoras de edificações industriais, residenciais e comerciais", conta Tamaki. Engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Marcos Tamaki é coordenador pelo CTE (Centro de Tecnologia de Edificações) do desenvolvimento das normas internas para inspeção de materiais de execução e inspeção para o Qualihab da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo). Saiba mais sobre "Especificação e Recebimento de Materiais de Construção" na entrevista que ele concedeu ao NaObra.

Como foi o processo de confecção deste livro?
Marcos Roberto Tamaki - Em primeiro lugar, foi definida a gama de materiais sobre os quais iríamos falar. Isso foi relativamente fácil, pois são insumos e produtos básicos da construção da Cesta Básica do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP-H). Em seguida realizamos uma árdua pesquisa sobre as normas técnicas, pois existem muitas versões, normas em revisão, ou outras que simplesmente foram canceladas. Vale lembrar que esse trabalho não foi realizado somente junto a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), mas também consultando as normas americanas, alemãs e francesas. Depois disso, consultamos fornecedores e fabricantes de insumos e produtos, cujo critério de seleção adotado foi: expressão no mercado (marca forte), indicação de construtoras (conceito perante os clientes), empresas que já estão engajadas no PBQP-H para fabricantes, e, por fim, a vontade de nos atender e colaborar com esse trabalho.

E qual foi o maior desafio desse trabalho?
Marcos Roberto Tamaki - O desafio foi escrever algo que pudesse ser aplicado a todos os tipos de empresas usuárias dos insumos e produtos da construção. Mas não somente construtoras, mas também empreiteiros, sub-empreiteiros, consumidores particulares, construtoras de imóveis de baixa renda, média e alta renda, construtoras de padrão alto luxo e construtoras de edificações industriais, residenciais e comerciais etc. Mas durante o projeto, outras dificuldades foram surgindo.

Como o quê?
Marcos Roberto Tamaki - Nem todos os materiais contemplados no livro possuíam normas técnicas específicas, o que nos fez recorrer a especialistas de diversas áreas. Além disso, as normas técnicas em geral são elaboradas para fabricantes de materiais, o rigor de inspeções é muito elevado, com ensaios complexos e tolerâncias para desvios de especificações muito restritos. Isso dificulta a aplicação completa da norma em empresas construtoras consumidoras dos produtos. Mas a maior dificuldade foi dosar a teoria das normas técnicas e textos técnicos com o que é viável para as empresas, ou seja, o quanto inspeções e cuidados com o material podem gerar benefícios para o produto final que é a obra pronta.

Com a experiência extraída deste trabalho, como o senhor avalia a qualidade dos materiais de construção no Brasil? E as normas. São adequadas?
Marcos Roberto Tamaki - Estive na França em maio de 2000, onde visitei algumas empresas construtoras, obras, fornecedores de materiais, sindicatos patronais e seguradoras da construção civil. Lá,notei que as inspeções de recebimento dos materiais nas obras restringiam-se, em quase todos os casos, a somente conferência de quantidades. Isso é muito bom para as construtoras que contam com materiais de melhor qualidade e gastam menos recursos com inspeções. Isso é possível, pois no mercado francês, os materiais somente são colocados à venda após passarem por um processo de certificação, ou seja, recebem um selo de conformidade que atesta que ele atende uma norma técnica específica, o que já é, em princípio, um grande passo para a garantia da qualidade do produto. Por incrível que pareça, até os blocos de concreto recebem o carimbo da norma técnica francesa específica para o material. Não existe uma regulamentação que obrigue que os fabricantes certifiquem seu produto, mas pela exigência do próprio mercado (construtoras) eles o fazem para ter credibilidade e efetivamente obter vendas. É lógico que isso não é o único fator indutor para a melhoria da qualidade, mas já é um grande passo para tal. No Brasil, ainda existem materiais que não possuem normas técnicas específicas, porém estão em fase de elaboração. Também, a quantidade de materiais certificados conforme norma técnica é muito pequena.

Nesse sentido, como o senhor projeta o futuro?
Marcos Roberto Tamaki - O PBQP-H tem como meta mobilizadora fazer com que, até 2002, 90% dos materiais da cesta básica estejam certificados conforme norma. Por outro lado, as construtoras que estão no final da cadeia produtiva da construção civil, inicialmente elas recebem o maior impacto, mas futuramente os frutos serão colhidos, com a criação de um mercado mais seletivo, uma gama maior de produtos certificados e fornecedores mais qualificados farão com que as inspeções sejam mais brandas, ou até mesmo desnecessárias e acima de tudo a qualidade do material empregado nas edificações seja garantida.

 

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Quinta, 29/7/2010