Os novos tempos competitivos demandam um novo perfil do engenheiro civil

* Por Roberto de Souza, consultor de empresas, doutor em engenharia pela Escola Politécnica da USP e diretor do CTE - Centro de Tecnologia de Edificações, empresa especializada em gestão da qualidade e inovações tecnológicas no setor da construção

O setor da construção civil vive no Brasil um intenso movimento pela melhoria da qualidade. São centenas de empresas construtoras, projetistas e fabricantes de materiais em processo de implantação de sistemas de gestão da qualidade, certificação ISO 9000 e qualificação de acordo com os requisitos do PBQP-H - Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat visando atender às exigências da CEF - Caixa Econômica Federal.

O CTE vem participando ativamente deste movimento em 14 estados brasileiros, prestando consultoria para mais de 600 empresas construtoras de pequeno, médio e grande porte.

Nesse permanente contato do CTE com diferentes culturas e diferentes canteiros de obras, uma questão nos tem sido colocada de forma recorrente pelas empresas: a inadequação do perfil atual do engenheiro de obras para enfrentar o ambiente competitivo que estamos vivendo.

Preocupado com essa questão o CTE realizou uma série de estudos e levantamentos junto a empresários da construção e canteiros de obras, cujas conclusões merecem ser ressaltadas e debatidas em nosso setor.

Em primeiro lugar observa-se que em função da estabilização da economia e da redução das margens de lucratividade das empresas, está havendo uma valorização da engenharia e da gestão da produção. A lucratividade do negócio das construtoras está situada hoje em taxas médias que variam de 5 a 15%. A correta organização do canteiro de obras, a racionalização de processos, a inovação tecnológica e o aumento da produtividade eram questões que antes ficavam em segundo plano. Hoje, ao contrário, afetam diretamente o lucro da empresa.

Essa valorização da gestão da produção e da qualidade requer do engenheiro civil um perfil diferente do clássico estilo tocador de obras ou burocrático/administrativo. Nos estudos por nós realizados junto a uma série de empresas construtoras, identificamos algumas características desse novo perfil do engenheiro que passamos a discutir a seguir.

• Foco em resultados a serem gerados pela obra em termos de custos, prazos, qualidade do produto final e grau de satisfação do cliente. A obra deve ser vista pelo engenheiro como uma unidade de negócios, como uma filial da empresa que deve gerar resultados. Esses resultados por sua vez devem ser compatíveis com as metas empresarias da construtora que deve negociar um Plano de Resultados com seus engenheiros, avaliando seu desempenho, promovendo as ações corretivas necessárias em casos de não-conformidades. Por isso a importância da definição de metas por parte da empresa e de uma clara visão global por parte do engenheiro em relação às características do empreendimento, condições contratuais, condições de financiamento, custos e prazo previstos, projeto, especificações e exigências do cliente.

• Ação gerencial do engenheiro que tendo a visão sistêmica do empreendimento deve concentrar suas atribuições na gestão dos macro-processos da obra: projeto e implantação do canteiro de obras; planejamento, programação e controle da obra; suprimentos de materiais e equipamentos; contratação de mão-de-obra e gestão de empreiteiros; gestão da segurança do trabalho; gestão da qualidade da obra através do controle da qualidade de materiais, execução da obra e entrega da obra. Este perfil gerencial se contrapõe ao atual papel do engenheiro que tem consumido a maior parte do seu tempo em atividades operacionais e administrativas que não agregam valor à função e não se constituem em suas atividades essenciais.

Uma analogia positiva nesse sentido é a de considerar a obra como se fosse uma fábrica e o engenheiro como se fosse o gerente geral dessa fábrica. Quais seriam suas atribuições gerenciais? Projetar o lay-out da fábrica (canteiro de obras), planejar e controlar a produção (planejamento e controle da obra), promover a contratação, o treinamento e a gestão dos profissionais que atuam na administração, supervisão e na produção (mestre de obras, administrativo de obras, almoxarife e equipes de produção), fazer a gestão dos insumos que farão parte do produto final (suprimentos e controle da qualidade dos materiais), fazer a gestão da produção com qualidade assegurada (gestão da qualidade dos processos executivos de obra e da entrega da obra), garantir o prazo de entrega do produto e os custos (prazo de entrega da obra e gestão dos custos de acordo com o orçamento inicial).

• Domínio de metodologias de planejamento e controle de obras permitindo a utilização de instrumentos que permitem planejar, programar e controlar os serviços de execução obras de forma integrada com os processos de planejamento e custos da empresa. Essa habilidade é fundamental, pois permite além do controle gerencial do andamento da obra, a geração de indicadores de produtividade e de custos próprios da empresa que medem seu desempenho real.

Fazendo novamente analogia com a indústria as ferramentas a serem implementadas e dominadas pelo engenheiro seriam às relativas ao Planejamento e Controle da produção (PCP) largamente utilizadas nos cursos de engenharia de produção e aplicadas na indústria de transformação.

• Conhecimento de inovações tecnológicas buscando a familiaridade com os processos construtivos racionalizados e as inovações tecnológicas que estão sendo implementadas no setor. Após a abertura do mercado brasileiro várias novas tecnologias de produto e processo (formas metálicas, dry-wall, painéis pré-moldados de fachada, sistema PEX para instalações, equipamentos à laser para controle geométrico de obras) adentraram ao mercado. O domínio dessas novas tecnologias está se tornando fator de diferencial competitivo das empresas permitindo a melhoria dos processos construtivos e promovendo ganhos de produtividade e redução dos custos.

Em sua posição de gestor da obra o engenheiro é o principal agente da gestão da tecnologia dentro do canteiro, sendo elemento essencial na motivação, capacitação de pessoas e preparação do ambiente da obra para a introdução das novas tecnologias.

A reciclagem profissional e o desenvolvimento do espírito investigativo parecem ser as formas mais adequadas para o engenheiro investir neste novo perfil e ganhar conhecimentos sólidos no campo tecnológico.


• Habilidades em gestão de pessoas desenvolvendo competência para exercício da liderança, comunicação, negociação, trabalho em equipe, treinamento e motivação de forma a gerenciar o pessoal próprio e empreiteiros obtendo comprometimento, melhor desempenho e maior produtividade. Tais habilidades são essenciais em ambientes de trabalho onde a implantação de novas tecnologias e procedimentos padronizados são uma tônica.

A implantação de sistemas de gestão da qualidade e a introdução de inovações tecnológicas nas empresas introduzem mudanças significativas nas formas de trabalho de mestres, operários, almoxarifes, administrativos de obras e empreiteiros. São processos de mudança organizacionais que dependem da motivação e do comprometimento das pessoas para que efetivamente aconteçam na prática. O líder dessas mudanças no canteiro é sem dúvida o engenheiro de obras que para tal deve "vender" as vantagens dessas novas práticas no canteiro para os profissionais das obras e conduzi-los competente e eficaz.


• Espírito empreendedor do engenheiro permitindo a tomada de decisões e de iniciativas como representante da alta administração da empresa dentro da obra e combatendo um certo comodismo onde o engenheiro adota uma postura reativa face às cobranças feitas pelo coordenador de obras ou pelo diretor técnico da empresa.

Este espírito empreendedor é visto como determinante para as empresas que tendem a adotar estruturaras de gestão mais enxutas e ágeis exigindo alto grau de flexibilidade, capacidade de decisão e iniciativa de seus engenheiros nos canteiros de obras.

As conclusões desses estudos e levantamentos conduzidos pelo CTE sobre o perfil do engenheiro de obras levantam uma polêmica bastante oportuna sobre a formação atual que vem sendo dada pelas universidades aos nossos engenheiros civis, uma formação que com certeza não está aderente ao perfil atualmente exigido pelo mercado de trabalho.
São óbvias as lacunas identificadas nos currículos escolares, onde não se encontram disciplinas que abordam temas relativos à gestão empresarial, gestão de pessoas, gestão de empreendimentos e desenvolvimento de habilidades gerenciais e de liderança de equipes. Em geral a abordagem das universidades tem sido extremamente tecnicista propiciando uma formação segmentada com pequena visão sistêmica e com pouca ênfase à formação do engenheiro enquanto GESTOR.

Um segundo aspecto a considerar diz respeito à reciclagem dos engenheiros já formados visando sua capacitação nessas novas habilidades. Nesse aspecto são carentes também os cursos de especialização com ênfase nos aspectos comentados ao longo deste artigo.

O momento vivido pela construção civil brasileira coloca esses desafios em nossa pauta de modernização empresarial e setorial.

São desafios colocados pelos tempos competitivos e que exigem maior qualificação de nossos engenheiros civis e um posicionamento dos vários agentes da cadeia produtiva da construção, em especial das entidades de classe e das universidades brasileiras.

 

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Quinta, 29/7/2010