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A FACE OCULTA DAS ENCHENTES NA RMSP
Geól. Álvaro Rodrigues dos
Santos
santosalvaro@uol.com.br
(011) 3722 1455
O combate às enchentes na região metropolitana
paulista deve, para garantir resultados confiáveis,
atacar indispensavelmente cinco frentes técnicas, combinada
e concomitantemente: as quatro primeiras frentes dizem respeito
a medidas hidráulicas estruturais, quais sejam as obras
de alargamento e aprofundamento da calha do Tietê (que
não podem mais sofrer descontinuidades), o permanente
desassoreamento de todos rios, córregos e drenagens
construídas, a eliminação de pontos de
estrangulamento representados por pontes, galerias e sistemas
de drenagem antigos que já não suportam mais
as vazões a que são submetidos, e a construção
de piscinões em pontos estrategicamente escolhidos.
A quinta frente técnica, e sem o sucesso da qual todas
as outras medidas ficam comprometidas em seus resultados,
diz respeito justamente aos trabalhos ditos não estruturais,
fora das calhas hidrográficas, voltados a reduzir ao
máximo o assoreamento das drenagens naturais e construídas
através do controle da erosão nas frentes de
expansão metropolitana, do lançamento irregular
de lixo e entulho de construção civil e do desgaste
precoce de pavimentos urbanos.
Os processos erosivos nas frentes de expansão urbana
da RMSP estão em crescimento exponencial e suas conseqüências
no violento assoreamento da rede de drenagem natural e construída
constituem hoje causa direta de uma tipologia de enchentes
não necessariamente relacionadas diretamente à
elevação do nível de base das águas
dos principais rios locais (Tietê e Pinheiros), mas
sim à redução drástica das capacidades
de vazão da rede de afluentes e do sistema de drenagem
construída, especialmente pelo seu entulhamento com
sedimentos e lixo.
O próprio transbordamento (enchentes circunscritas
às Marginais e proximidades) do Tietê e do Pinheiros
por ocasião de chuvas intensas e concentradas também
deve-se em boa parte, e crescentemente, ao volumoso aporte
de sedimentos e lixo trazidos por essas chuvas para as calhas
hidrográficas principais, reduzindo-lhes sobremaneira
sua capacidade de escoamento. Note-se que o maior aporte de
material de assoreamento se dá pelas próprias
chuvas causadoras das enchentes, o que implica que trabalhos
anteriores de desassoreamento não sejam suficientes
para a eliminação do problema.
Ao mesmo tempo, a necessidade do constante desassoreamento
destes rios impõe um fantástico nível
de gastos ao poder público metropolitano retirando
sua capacidade de investimentos em soluções
mais racionais e definitivas para o problema geral de enchentes
na região, ou mesmo no atendimento de outras necessidades
da população metropolitana.
Mais recentemente, o mesmo fenômeno de aporte de sedimentos
e lixo tem implicado no violento assoreamento dos piscinões,
retirando-lhes a capacidade de bem cumprir sua função
projetada de retenção temporária de volumes
expressivos da água proveniente de episódios
de chuvas intensas.
Importante ressaltar que o poder público, através
dos serviços de desassoreamento das calhas dos principais
rios da Região Metropolitana, obras onde já
foram aplicados ao longo de décadas recursos na ordem
de alguns bilhões de reais, tem até hoje se
batido exclusivamente com as conseqüências dos
processos erosivos. Com a implementação de medidas
corretivas e preventivas de redução da erosão
e do assoreamento (sedimentos, lixo, entulho de construção
civil, material de desgaste de pavimentos), especialmente
nas áreas médias e de cabeceira das sub-bacias
hidrográficas afluentes, em intervenções
sugestivas de centenas de pequenos contratos com pequenas
e médias empresas locais, pela primeira vez o poder
público estaria armando-se para atacar uma das principais
causas do problema, o que, a médio prazo, minimizaria
suas conseqüências e permitiria trabalhar-se com
sistemas de manutenção e ampliação
das calhas principais mais circunscritos e menos problemáticos
e dispendiosos.
De uma forma geral, a ocupação urbana da metrópole
paulista desenvolveu-se até meados do século
XX no interior do vértice dos rios Tietê e Pinheiros,
e ao longo de alguns eixos estratégicos, ocupando preferencialmente
terrenos sedimentares (terciários) de topografia suave
e de características geológico-geotécnicas
favoráveis à ocupação urbana.
Com o crescimento explosivo após a metade do século,
vêm sendo progressivamente ocupados, e sem nenhum critério
técnico diferenciado, os terrenos mais periféricos,
de relevo mais acidentado e com solos de alteração
de rochas cristalinas extremamente mais vulneráveis
à erosão (os solos de alteração
de rochas cristalinas são até 100 vezes mais
erodíveis que os solos superficiais laterizados e os
solos argilosos dos sedimentos terciários). Assim,
a expansão urbana vem se processando, via-de-regra,
através de intensas e extensas terraplenagens e de
exposições cada vez maiores e mais prolongadas
dos solos de alteração aos processos erosivos,
em uma prática nociva e nada criativa do ponto de vista
técnico, pela qual persistentemente se privilegia a
adaptação dos terrenos aos projetos ao invés
de adequar os projetos às características naturais
dos terrenos.
Do ponto de vista dos processos geológicos, pode-se
dizer que as modificações implementadas pela
urbanização no meio físico-botânico
da RMSP, especialmente através das operações
de terraplenagem e da eliminação da proteção
vegetal, proporcionou um novo ciclo de dissecação
erosiva dos entornos montanhosos e de sedimentação/entulhamento
da bacia.
Os municípios envolvidos na RMSP, em suas operações
de desobstrução e limpeza de drenagens naturais
e construídas gastam anualmente algo na ordem de R$200.000.000,00.
Outra enorme despesa, mas também muito difícil
de ser contabilizada, refere-se à imobilização
patrimonial de extensas áreas públicas hoje
utilizadas para a disposição do material resultante
das operações de desassoreamento; que levam
consigo, aliás, enorme carga poluidora para esses locais.
Para facilidade de nossas contas vamos aqui desprezar esse
valor.
E perceba-se que no caso somente está-se considerando
o assoreamento promovido pelas frações mais
arenosas dos sedimentos, e que se depositam nos próprios
leitos dos rios. As frações mais finas (siltes
e argilas) que a água leva em suspensão e são
depositadas mais à frente ou em águas paradas
é de volume muitíssimo maior. Vejam como exemplo
desse material mais fino a lama que resta em enormes volumes
em ruas e residências atingidas por enchentes.
No que se refere às áreas erodidas das frentes
de expansão urbana da metrópole, observa-se,
por força desses processos, a intensa deterioração
da infra-estrutura urbana, principalmente no que toca ao sistema
viário para veículos e pedestres, ao sistema
de drenagem, aos taludes de corte e aterros, etc. É
de se imaginar a perda de qualidade de vida associada a esse
tipo de degradação e os prejuízos financeiros
para os cidadãos e para o poder público. Por
uma dificuldade de cálculos mais seguros, vamos aqui
também desprezar essa expressiva conta financeira.
Para se ter uma idéia mais próxima do alcance
deste desastre, segundo informações da COHAB-SP,
o custo final de uma unidade habitacional do Conjunto Habitacional
de Sta. Etelvina, implantado na Zona Leste de São Paulo
e dirigido à população de baixa renda,
saiu ao final para o poder público, por força
de violentos e recorrentes processos erosivos e pela necessidade
de pesados serviços de recuperação da
infra-estrutura e extensos atrasos de cronograma, ao preço
de um apartamento de classe média no bairro paulistano
de Pinheiros.
Ou seja, além dos benefícios diretos na redução
das enchentes, para cada real aplicado na redução
do assoreamento (através do combate às suas
causas), teríamos uma enorme economia nas despesas
públicas hoje implicadas no enfrentamento das conseqüências
do assoreamento e na recuperação urbana de áreas
erodidas.
Em conclusão, um corajoso e amplo programa preventivo
e corretivo de redução do aporte de sedimentos
e lixo para a rede metropolitana de drenagem constitui hoje
ação indispensável e condicional para
o sucesso das medidas de combate às enchentes.
Do ponto de vista gerencial, torna-se a cada dia mais evidente
a necessidade de se constituir um Grupo Executivo de Combate
às Enchentes na RMSP, que reúna todas as instâncias
envolvidas, sejam elas municipais, estaduais e federais. Esse
Grupo Executivo, formado especialmente por técnicos
de reconhecida experiência, e de caráter multidisciplinar,
teria como responsabilidade maior definir, programar, coordenar
e supervisionar todas as ações regionais voltadas
ao combate às enchentes, de forma a harmonizar e potencializar
seusultado.
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