Qualidade: instrumento de Competitividade

Eterno batalhador pela qualidade no setor da construção civil, o engenheiro Roberto de Souza, formado pela Escola Politécnica da USP, mestre e doutor em engenharia pela mesma escola, sempre esteve na vanguarda do assunto. Desde os tempos em que dirigiu a Divisão de Edificações do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), entre 1985 e 1989, falava em qualidade na construção, quando ninguém sabia exatamente o que era isso. Em sua cruzada, Souza escreveu livros, participou de seminários nacionais e internacionais e publicou artigos em revistas especializadas.

Os anos se passaram e a realidade se impôs. Hoje, qualidade é instrumento de competitividade. É condição sine qua non para a construção sobreviver economicamente. Seguindo sua vocação, a partir de 1990 Souza tornou-se consultor de empresas e criou o Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), especializado em gestão da qualidade e inovações tecnológicas no setor da construção civil. Nesta entrevista a Heloísa Medeíros, ele fala sobre os avanços da construção civil, sobre o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Hábítat (PBQP-H) e a disseminação do esforço pela melhoria da qualidade no setor.

Quais as características do programa de gestão da qualidade no desenvolvimento de projeto, do CTE?
Esse programa é voltado para os escritórios de arquitetura e orienta-os na organização de seus processos de trabalho e nos controles ao longo das fases de concepção, desenvolvimento, detalhamento e entrega do projeto. Também contempla acompanhamento e execução da obra. O trabalho culmina com a certificação das empresas de projeto de acordo com a norma ISO 9001, feita por um organismo de certificação credenciado. Atualmente, estamos trabalhando com cem escritórios, envolvendo não só o projeto arquitetônico, como os de estrutura e de instalações prediais. Os principais resultados alcançados pelos escritórios são o aumento da produtividade, a redução das não-conformidades de projeto, a maior compreensão das necessidades dos clientes, sem falar da melhoria da qualidade do produto final: o projeto executivo e suas especificações.

Como é a consultaria em gestão da tecnologia desenvolvida pelo CTE?
A consultaria em gestão da tecnologia é voltada à racionalização de processos construtivos e introdução de inovações tecnológicas nas empresas focadas em quatro áreas: estruturas de concreto armado, alvenaria de vedações, revestimentos de fachadas e novos sistemas construtivos para habitação. O trabalho consiste na realização de um diagnóstico da tecnologia empregada pela empresa e de seus indicadores de qualidade, produtividade e custos. Em seguida são oferecidas propostas de racionalização e inovação e selecionada a alternativa que implica melhor custo/beneficio. A fase final da consultaria envolve a implantação da nova forma de produzir, com as respectivas ações de projeto, execução, inspeção e controle do processo. Há forte ênfase no treinamento de pessoal e no monitoramento da produtividade e dos custos obtidos com a nova tecnologia. Temos trabalhado com construtoras, fabricantes de materiais e empresas que desenvolvem novos sistemas construtivos para edificações

Que outras atividades, relacionadas à melhoria da qualidade das edificações, o CTE está desenvolvendo?
Além dos programas de gestão da qualidade direcionados à certificação do PBQP-H, da ISO 9 000 e dos programas de gestão da tecnologia, o CTE está desenvolvendo trabalhos de consultaria nas áreas de gestão ambientar, segurança do trabalho e saúde ocupacional, entre outras.

Quando o PBQP-H foi implantado e quais os principais objetivos do programa?
O Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade na Construção Habitacional foi criado em 1998, sendo coordenado pela Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República. Em 2000, com a expansão do escopo do programa, passou-se a considerar, além da construção habitacional, todo o conceito de hábitat, abrangendo também as áreas de saneamento, infra-estrutura e transporte urbano. O programa passou a ser designado Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Hábitat.

Em que áreas o PBQP-H atua?
Ele está estruturado em 12 grandes projetos, envolvendo ações de normalização, gestão da qualidade, certificação, capa citação laboratorial, desenvolvimento e difusão de tecnologia, que atingem todos os segmentos da cadeia produtiva, com maior ênfase em construtoras, projetistas, fabricantes de materiais, agentes financeiros - como a Caixa Econômica Federal - e órgãos públicos contratantes de projetos e obras. O que tem tido maior destaque e relevância no setor é o Sistema de Qualificação Evolutiva de Empresas Construtoras (SIQ-C). No âmbito desse projeto, foi aprovada norma de referência que define um sistema evolutivo de gestão da qualidade baseado na ISO 9 000 e estabelece um conjunto de requisitos específicos a serem atendidos pelas empresas construtoras que executam obras de edificações.

Qual é sua avaliação dos resultados obtidos pelo programa no que se refere às construtoras?
Até setembro de 2002, cerca de 3 mil construtoras, de vários estados, haviam aderido aos sistemas evolutivos de gestão da qualidade. Desse total, 130 já estavam certificadas com a ISO 9000 e 250 qualificadas no nível A do Programa Qualihab ou do PBQP-H. As demais encontravam-se em processo de implantação e/ou qualificando-se nos vários níveis do PBQP-H. A Câmara Brasileira da Construção estima em 20 mil o número de construtoras existentes no Brasil. E embora as 3 mil que aderiram ao movimento da qualidade representem 15% do total, elas são líderes de mercado, tanto do ponto de vista econômico como tecnológico, respondendo por mais de 50% do volume total de negócios de construção no país

E quanto aos outros segmentos da cadeia produtiva?
A partir da implantação dos sistemas de gestão da qualidade nas construtoras, outros segmentos da cadeia produtiva passaram a se mobilizar e implementar seus programas de qualidade. Trata-se de uma reação em cadeia. As empresas de projeto de arquitetura, de estruturas e sistemas prediais passaram a ser selecionadas pelas construtoras a partir de seus critérios de qualificação e avaliação de fornecedores. Sabemos que o projeto é elemento essencial para a obtenção da qualidade do produto final. Assim, por iniciativa das entidades de classe, as empresas de projeto passaram a implementar programas de gestão da qualidade e certificação ISO 9 000, a partir de 1999, em vários estados do Brasil. Até setembro de 2002, o número de certificadas e em processo de certificação ultrapassava a casa de cem.

Essa corrente da qualidade tem atingido também a indústria?
Sim, as empresas fabricantes de materiais também passaram a ser cobradas, por parte das construtoras que implementam seus sistemas da qualidade na área de suprimentos. Nessa etapa, são definidas especificações técnicas para compra, além de procedimentos e critérios de inspeção e recebimento de materiais nas obras, sempre em conformidade com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas. De acordo com as diretrizes do PBQP-H, os sindicatos e as entidades de classe representativas dos fabricantes de materiais começaram a criar, a partir de 1999, os Programas Setoriais da Qualidade, cujo principal objetivo é definir as regras e os procedimentos para o combate à não-conformidade com as normas da ABNT nos produtos fabricados por cada segmento.

Como ocorre esse processo?
De acordo com o modelo, a entidade de classe de determinado segmento de fabricantes contrata uma empresa independente que recolhe amostras do produto nas fábricas e nas revendas. Depois, ensaia essas amostras e verifica sua conformidade com as normas da ABNT. Os resultados obtidos são publicados pela entidade na forma de listas de empresas que estão em conformidade e em não-conformidade. Em setembro do ano passado, já estavam em funcionamento 23 Programas Setoriais da Qualidade no âmbito do PBQP-H, envolvendo os principais segmentos produtores de materiais de construção.

De que maneira o setor público atua nesse cenário?
Os órgãos públicos contratantes d, obras em vários estados também começaram a exigir a qualificação evolutiva das construtoras para participação em licitações públicas. Essa interação com os programas da qualidade das construtoras fez com que alguns órgãos públicos do Pará e da Bahia implantassem, a partir de 2001, programas internos de gestão da qualidade, a fim de melhorar seus processos de licitação, contratação, gerenciamento, fiscalização e recebimento de projetos e obras. Esse movimento da qualidade nos órgãos públicos tende a se ampliar com a provável aprovação, por parte do PBQP-H, do Sistema de Qualificação Evolutiva de Órgãos Públicos Contratantes de Projetos e Obras.

Como as empresas de esquadrias e fachadas participam do programa?
As empresas de esquadria participam do PBQP-H através da estruturação e implementação de seus Programas Setoriais da Qualidade, sempre mediadas pelas entidades de classe do setor. já estão em funcionamento o Programa Setorial da Qualidade de Portas e janelas de PVC, o Programa Setorial da Qualidade de janelas e Portas de Aço e o Programa Setorial da Qualidade de Esquadrias de Alumínio.

A Associação dos Fabricantes de Esquadrias de Alumínio (Afeal) aderiu recentemente ao PBQP-H. Qual a importância dessa adesão para a qualidade do setor de fachadas e esquadrias das edificações?
A importância reside em uma ação coordenada pela entidade, voltada para quatro pontos principais. a atualização das normas técnicas do segmento produtos de esquadrias de alumínio; o monitoramento da conformidade dos produtos fabricados no Brasil em relação às normas da ABNT; a melhoria da tecnologia de produto e de processos para atender às exigências de qualidade fixadas no programa e divulgação das empresas; e a divulgação dos produtos que estão em conformidade ou não com as normas técnicas.

Também recentemente os bancos privados aderiram ao programa. Qual o significado dessa adesão?
Os bancos, como categoria, são representados pela Associação Brasileira de Empresas de Crédito Imobiliário (Abecip). Individualmente, aderiram o Bradesco, o Itaú e o ABN Amro Real. A Caixa Econômica Federal já havia entrado desde o início do PBQP-H e vem exigindo a qualificação evolutiva das construtoras para a concessão de financiamentos habitacionais. Como a prática agora se amplia para os bancos privados, essa é uma forma de os agentes de crédito exercitarem seu poder de compra, baseados na seleção de construtoras qualificadas para conduzir os empreendimentos, gerando benefícios para o consumidor final, por meio da entrega de produtos com melhor qualidade.

Como o usuário tem se comportado em meio a essas mudanças e exigências em relação à qualidade?
O perfil do consumidor brasileiro tem se pautado por maior grau de conhecimento e exigência em relação à qualidade dos imóveis. Além disso, o Código de Defesa do Consumidor veio fortalecer a posição dos clientes em suas relações contratuais com as construtoras. Mas é preciso lembrar que o consumidor quer qualidade com menor preço, o que nem sempre é possível, pois há empresas com foco estratégico na diferenciação do produto. E esses diferenciais têm que ser repassados para o preço final do produto.

É preciso investir muito dinheiro para atender às exigências do PBQP-H? A pequena empresa tem condições financeiras para isso?
O maior investimento está na capacitação interna dos profissionais da empresa. E também no tempo de implementação da racionalização e melhoria dos processos de gestão empresarial. Além desses custos, a empresa tem de investir na contratarão de consultoria e de uma certificadora. Mas são valores que não excluem as pequenas empresas. No caso de uma construtora de médio porte, o investimento em consultaria e certificação equivale ao custo de um operário com encargos sociais, durante três anos.

Fale um pouco sobre a atuação do CTE em relação ao PBQP-H.
O CTE atua como empresa de consultoria, implantando os sistemas de gestão da qualidade em construtoras, empresas de projeto, fabricantes de materiais e órgãos públicos contratantes de projetos e obras. Atualmente, o CTE tem atuação em 17 estados do Brasil e conta com corpo técnico de 93 consultores. já levamos à certificação mais de 400 empresas e hoje estamos preparando outras 500, em todo o país. E estamos começando a atuar no Chile.

Que outras atividades, relacionadas à melhoria da qualidade das edificações, a CTE está desenvolvendo?
Além dos programas de gestão da qualidade direcionados à certificação do PBQP-H, da ISO 9000 e dos programas de gestão da tecnologia, o CTE está desenvolvendo trabalhos de consultaria nas áreas de gestão ambiental, segurança do trabalho e saúde ocupacional, gestão e participação em resultados, orientação para implantação de softwares de gestão empresarial, educação continuada e reciclagem profissional, desenvolvimento de websites e ferramentas de gestão via Internet.

Quando o senhor começou a se preocupar com a questão da qualidade na construção civil?
Desde o tempo em que dirigi a Divisão de Edificações do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), entre 1985 e 1989, onde comecei como pesquisador, em 1976. Depois, entre 1988 e 1992, fui presidente do Comitê Brasileiro da Construção da Associação Brasileira de Normas Técnicas (Cobracon/ ABNT). Era uma época em que poucos falavam em qualidade na construção.

Quais os livros que o senhor já escreveu sobre o assunto?
Escrevi os livros Sistema de gestão da qualidade para empresas construtoras, Qualidade na aquisição de materiais e execução de obras e Especificação e recebimento de materiais de construção.

Atualmente, como está o mercado no que se refere à qualidade?
Diversos órgãos públicos e entidades de crédito e financiamento não trabalham com empresas que não tenham implantado sistemas de qualidade. Criou-se uma reação em cadeia, em que construtoras, projetistas, fabricantes de materiais e agentes financeiros oferecem qualidade, mas também a exigem de seus fornecedores.

Fonte: Revista FINESTRA/BRASIL nº 32

 

Quinta, 29/7/2010