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Integração e cooperação
entre os agentes da cadeia produtiva: uma estratégia
para elevar a qualidade e a produtividade na construção
Roberto de Souza, engenheiro civil, mestre e doutor pela
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Consultor de empresas e diretor do CTE - Centro de Tecnologia
de Edificações, empresa especializada em gestão,
qualidade e tecnologia no setor da construção.
O setor da construção passou por importantes
transformações nestes últimos oito anos:
os programas de qualidade e de segurança do trabalho
chegaram aos canteiros de obras, a racionalização
de processos construtivos já faz parte do cenário
produtivo e o poder de compra do estado exerce ação
indutora de melhoria da competitividade junto a projetistas,
fabricantes de materiais e construtores, através de
programas como o Qualihab, Qualiop e PBQP-H.
Neste período fechou-se um ciclo de modernização
na construção civil brasileira, marcado pela
introdução e prática em nossas empresas
de conceitos e metodologias de segurança, gestão
da qualidade, planejamento e controle da produção
e racionalização construtiva. Os principais
desperdícios foram combatidos e os custos improdutivos
reduzidos.
Para promover um outro salto de competitividade no setor
é preciso iniciar um novo ciclo, consolidando e mantendo
as conquistas alcançadas e desenvolvendo outras importantes
ações de natureza estruturadora, focadas em
três grandes vetores:
Melhoria do desempenho do produto final
Gestão ambiental
Inovação tecnológica
Para se ter êxito nesta nova caminhada é fundamental
a adoção de uma estratégia de integração
e cooperação entre os agentes da cadeia produtiva,
que resulte em maior sinergia entre as ações
dos vários agentes, gerando resultados mais eficazes
em termos de qualidade, produtividade e custos, tanto para
as empresas do setor, quanto para os clientes e a sociedade.
Nesse sentido é importante ressaltar que a cadeia
produtiva que forma o setor da construção é
bastante complexa e heterogênea, contando com uma grande
diversidade de agentes intervenientes e de produtos parciais
gerados ao longo do processo de produção. Ressaltam-se
entre esses agentes:
1) Os clientes que variam de acordo com o poder aquisitivo,
as regiões do país e a especificidade das obras:
habitações, escolas, hospitais, edifícios
comerciais e de lazer, rodovias, infra-estrutura, etc.;
2) Os agentes responsáveis pelo planejamento
do empreendimento que podem ser agentes financeiros e promotores,
órgãos públicos, agentes privados, incorporadores,
consultorias, além dos órgãos legais
e normativos envolvidos, dependendo do tipo de obra a ser
construída;
3) Os agentes responsáveis pela etapa de projeto:
empresas responsáveis por estudos preliminares (sondagens,
topografia, demografia, etc.), urbanistas, projetistas de
arquitetura, projetistas estruturais, projetistas de instalações
e redes de infra-estrutura, além dos órgãos
públicos ou privados responsáveis pela coordenação
do projeto;
4) Os fabricantes e revendedores de materiais de construção
constituídos pelos segmentos industriais produtores
de insumos e pela revenda de materiais;
5) Os agentes envolvidos na etapa de execução
das obras: empresas construtoras, empreiteiros, profissionais
autônomos, auto-construtores, laboratórios, empresas
gerenciadoras e órgãos públicos ou privados
responsáveis pelo controle e fiscalização
das obras;
6) Os agentes responsáveis pela operação
e manutenção das obras ao longo da sua fase
de uso: condomínios, administradores de imóveis,
proprietários, usuários e empresas especializadas
em operação e manutenção.
Implementar ações estratégicas de
integração e cooperação entre
os agentes da cadeia produtiva implica em um longo e meticuloso
trabalho de articulação entre esses diversos
agentes do processo, tarefa complexa pois estes têm
interesses muitas vezes conflitantes, devido as suas relações
comerciais e contratuais. O desafio é ainda agravado
em função do perfil das empresas do setor, caracterizado
por um grande número de micro e pequenas empresas,
e de sua distribuição espacial pelas várias
regiões do Brasil.
Para contribuir com o debate sobre as ações
estratégicas de integração e cooperação
dos agentes da cadeia produtiva da construção,
faremos algumas breves reflexões sobre os principais
focos, que a nosso ver, devem nortear essas ações.
O FOCO NA MELHORIA DE DESEMPENHO DO PRODUTO FINAL
A maioria dos esforços de modernização
do setor da construção teve como foco nesses
últimos anos a gestão da qualidade e a racionalização
de processos, gerando redução de custos e benefícios
para as empresas e melhorando sua competitividade. Pouco se
trabalhou na melhoria do desempenho do produto final entregue
aos clientes e à sociedade.
O desempenho de um produto é sinônimo de seu
comportamento na fase de uso. Este desempenho será
julgado como satisfatório se o produto atender às
necessidades dos clientes e usuários. No caso da
construção, essas necessidades podem ser traduzidas
como exigências de atendimento a condições
de segurança estrutural, segurança à
utilização, segurança ao fogo, conforto
térmico, luminoso e acústico e durabilidade
do produto. De forma complementar a construção
ter desempenho adequado em termos de seus custos de produção,
operação e manutenção ao longo
da sua vida útil.
Sendo a construção resultado do trabalho conjunto
de entidades financeiras, contratantes, projetistas, fabricantes
e construtores, a integração e cooperação
entre os vários agentes da cadeia produtiva é
fundamental para um movimento de melhoria do desempenho dos
produtos finais entregues aos clientes e à sociedade.
Algumas ações que podem ser estrategicamente
conduzidas no setor são as seguintes:
- elaboração de especificações
de desempenho para os materiais e sistemas construtivos e
sua caracterização em laboratório;
- adoção de diretrizes e critérios de
desempenho para a elaboração de projetos arquitetônicos,
estruturais e de instalações;
- capacitação de projetistas, construtores,
fabricantes, contratantes e profissionais, sobre os conceitos
de desempenho e suas práticas na construção
- elaboração de normas técnicas, legislação
e códigos de obras voltados à construção,
com base no conceito de desempenho.
O FOCO NA GESTÃO AMBIENTAL
O desenvolvimento sustentável e a gestão ambiental
são os grandes desafios do futuro para a construção.
Cada vez mais a consciência ecológica da sociedade
se amplia e a legislação ambiental se transforma
em instrumento regulador entre a atividade produtiva e as
necessidades sócio - ambientais.
A gestão ambiental no setor da construção
consiste em implementar ações preventivas de
forma a promover um equilíbrio entre as atividades
e os produtos originados do processo de produção
dos empreendimentos e os aspectos e impactos ambientais que
podem ser gerados no meio ambiente, mais especificamente considerando
cada uma de suas dimensões: o ar, a água, o
solo, os recursos naturais, os seres vivos e o ambiente urbano.
De novo, a estratégia de integração
e cooperação da cadeia produtiva da construção
é essencial para se promover um desenvolvimento ambiental
harmônico no setor, pois os aspectos e impactos ambientais
influenciados pela atividade da construção envolvem
todos os agentes da cadeia produtiva e as várias fases
do processo de produção: concepção
e implantação do empreendimento, projeto urbanístico
e da edificação, fabricação de
materiais e componentes, execução das obras
e finalmente o uso, operação e manutenção
do empreendimento
Algumas ações que podem ser estrategicamente
conduzidas no setor são as seguintes:
- definição e implementação de
critérios ambientais para concepção e
implantação de empreendimentos;
- definição e implementação de
diretrizes e critérios ambientais para o desenvolvimento
de projetos;
- definição e adoção de especificações
ambientais para materiais, componentes e sistemas construtivos;
- definição de procedimentos e adoção
do Plano da Qualidade Ambiental para implantação
de canteiros e execução de obras;
- definição e adoção de critérios
ambientais para uso e operação de empreendimentos
habitacionais, comerciais e institucionais, considerando em
especial a economia de água e de energia, a coleta
seletiva e disposição do lixo e a preservação
da vegetação local e do ambiente urbano.
O FOCO NA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
A inovação tecnológica se constituirá
no futuro próximo como o principal fator indutor da
competitividade do setor da construção. Para
conseguirmos resultados mais rápidos, utilizando menos
recursos e a um menor custo, ou seja para elevarmos a produtividade
da construção, será preciso promover
uma grande aliança estratégica entre
os agentes da cadeia produtiva com foco na inovação
tecnológica.
Essa aliança estratégica deve envolver
três grandes vertentes da tecnologia: a inovação
na tecnologia do produto e do projeto, a inovação
na tecnologia de materiais, processos e sistemas construtivos
e a inovação na tecnologia da informação.
A inovação na tecnologia do produto e do
projeto está voltada ao desenvolvimento da pesquisa
de novas alternativas de produto e soluções
de projeto, focadas em segmentos específicos do mercado
imobiliário. As ferramentas a serem utilizadas são
de um lado o marketing, englobando a definição
do público alvo para o produto, a realização
de pesquisas de mercado, a identificação das
necessidades dos clientes e de outro lado, o desenvolvimento
do produto, envolvendo a engenharia simultânea, a teoria
da cadeia de valor, a avaliação de desempenho
do produto e a avaliação do grau de satisfação
do cliente.
A inovação na tecnologia de materiais, processos
e sistemas construtivos envolve a pesquisa tecnológica
promovida em parceria entre o setor privado e as universidades
e institutos de pesquisa ou a adaptação à
realidade brasileira de tecnologias já disponíveis
em outros países. A construção em aço
e em madeira tem muito a avançar neste campo, assim
como o uso do plástico e a construção
com pré-moldados de concreto, especialmente os que
se utilizam do concreto leve e do concreto de alto desempenho.
Ênfase especial deve ser dada ao desenvolvimento de
sistemas construtivos para casas e edifícios leves,
com base nos princípios da construção
seca que permitem uma alta produtividade.
A inovação na tecnologia da informação
no setor da construção deve estar em um primeiro
momento voltada ao desenvolvimento de softwares de integração
e gestão de processos empresariais para fabricantes,
projetistas, construtores e contratantes. Uma segunda fase
de desenvolvimento deve se concentrar nos aplicativos de trabalho
cooperativo via WEB, especialmente na gestão de projetos
e gerenciamento de obras, bem como na implementação
da comunicação técnica digital entre
os vários agentes da cadeia produtiva e do comércio
eletrônico entre as empresas.
Fonte: PINI
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