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A Copa 2014 será mesmo tão verde quanto as nossas florestas?
Artigo | 27/07/2010
por André Luis dos Santos Xavier, Consultor da Unidade de Sustentabilidade do CTE

A Copa de 2014 deveria ser um evento pautado pela sustentabilidade. O presidente Lula afirmou que o Brasil fará uma Copa tão verde quanto nossas florestas e a sustentabilidade será uma das marcas do Mundial. Acompanhe a entrevista de André Luis dos Santos Xavier, Consultor da Unidade de Sustentabilidade do CTE – que hoje está envolvida em vários projetos sustentáveis de arenas e projetos decorrentes deste evento, como empreendimentos, novas urbanizações e revitalização de áreas urbanizadas – sobre as condições necessárias para que a Copa e seu legado possam ser realmente “verdes”.

Esta ideia da Copa Verde no Brasil pode ser tornar realidade? Temos tempo para projetar e executar tantas obras?

Apesar de termos uma oportunidade concreta de promover um evento de visibilidade mundial pautado por parâmetros de sustentabilidade, acredito que podemos atingir parcialmente tal objetivo, pois os desafios de hoje até 2014 são imensos.

Primeiramente, temos que destacar os três grupos de obras para o mundial de 2014: as arenas para a Copa, as obras de infraestrutura urbana de transporte e correlatos (inserção urbana das arenas e correlatos) e as obras de infraestrutura de transporte inter-regionais e internacionais (ampliação e reformas de portos e aeroportos).

Em relação às arenas que receberão os jogos de 2014, existe sim a possibilidade de contemplar parâmetros de sustentabilidade em seus projetos e processos de execução e entregá-las a tempo, até o início de 2013, quando haverá a Copa das Confederações, desde que as licitações das obras aconteçam rapidamente. Como o CTE integra hoje equipes que estão trabalhando em algumas arenas, cujos projetos estão sendo preparados para a busca da certificação LEED®, vemos que algumas licitações já estão ocorrendo e as respectivas obras iniciando, o que prova ser possível esta articulação. No entanto, algumas arenas ainda não “decolaram”, os projetos ainda estão por finalizar, ou seja, estão longe de terem suas obras iniciadas.

O principal desafio, na verdade, está em entregar a tempo obras de mobilidade urbana e equipamentos de utilidade pública ligados ao legado que o evento Copa 2014 pode deixar para o país (mobilidade intraurbana, mobilidade regional em âmbito nacional e internacional). Estas obras demandam um longo tempo de projeto e uma execução cuidadosa, principalmente se a meta for pautar esta execução em parâmetros de sustentabilidade de forma efetiva.

O País e as cidades-sede dos jogos da Copa 2014, ao serem escolhidas, ratificaram um termo de compromisso com a FIFA, comprometendo-se a entregar as obras de mobilidade urbana (viabilização de acesso ao público durante os jogos da Copa) antes do início da operação das arenas. Isso que dizer que, a princípio, as obras de mobilidade urbana deveriam ser entregues até o início da Copa das Confederações, em 2013. Não saberia dizer se existe maleabilidade neste prazo, visto que muitas das obras de mobilidade urbana durante as obras da Copa de 2010 na África do Sul não ficaram prontas a tempo.

Como a sustentabilidade pode fazer parte das concepções dos projetos nestas diversas áreas? Que requisitos deverão ser atendidos pelos projetos das arenas e de seu entorno para torná-los sustentáveis?

Na escala do edifício, das arenas para a Copa 2014, os projetos que buscam a sustentabilidade devem pautar-se por impactar o mínimo possível o meio ambiente durante a execução das obras e, principalmente, durante a operação das arenas. Sobre sustentabilidade em edifícios, podemos focar, então, em cinco grandes grupos de análise:

Inserção urbana
Economia no consumo de água
Materiais e recursos
Eficiência energética e atmosfera
Qualidade do ar interno e conforto ambiental em edificações


Além disso, as arenas devem viabilizar a adequada inserção urbana do empreendimento de forma a contribuir com o ambiente urbano em que o projeto se situa, considerando:

Uso de transporte coletivo, bicicletas, carpool, ou utilização de veículos com baixa emissão de poluentes.
Restrições de urbanização em áreas alagáveis e outras restrições de urbanização.
Acesso a serviços básicos.
Redução de efeitos de ilhas de calor.
Redução de impactos no entorno durante a execução da obra (pré-requisito).
Áreas verdes no empreendimento.
Gestão adequada de águas pluviais no empreendimento para evitar sobrecarga da infraestrutura de drenagem do meio urbano.
Redução de poluição luminosa do empreendimento em suas áreas externas.
Utilização de água pluvial ou água de reuso tratada em irrigação, vasos sanitários, mictórios, em sistema de ar condicionado e limpeza de áreas externas.
Utilização de dispositivos economizadores (louças sanitárias, torneiras e chuveiros com economizadores).
Paisagismo de baixo consumo de irrigação.
Irrigação eficiente quando necessário.


No quesito eficiência energética e atmosfera, o empreendimento deve buscar a redução significativa no consumo de energia do empreendimento frente a um empreendimento convencional:

Iluminação eficiente.
Priorização de estratégia de conforto ambiental que propicie redução da utilização de sistema de ar condicionado.
Sistemas de ar condicionado de alta eficiência.
Adequada gestão de gases de sistemas de refrigeração (ar condicionado).
Implantação adequada do edifício no terreno quanto à sua insolação.


No quesito materiais e recursos, o empreendimento deve buscar:

Gestão de resíduos durante a operação do empreendimento.
Reuso de materiais.
Destinação de resíduos de obra e demolição para reciclagem.
Utilização de materiais com conteúdo reciclado, produzidos e beneficiados regionalmente, rapidamente renováveis.
Utilização de madeira certificada.


No quesito qualidade do ar interno e conforto ambiental em edificações, o empreendimento deve buscar:

Atendimento a níveis mínimos de qualidade do ar interno na edificação durante a sua operação e execução.
Controle do uso de tabaco no empreendimento.
Utilização de materiais que respeitem níveis máximos permitidos de composto orgânico volátil (preferencialmente materiais sem estes compostos).
Controlabilidade de sistemas de iluminação e ar condicionado.
Conforto térmico no projeto e na operação do empreendimento.
Maximização do uso de iluminação natural e acesso a vista externas.


Na escala urbana– urbanização onde se insere estas arenas e outros empreendimentos que venham a reboque da implantação das arenas (mobilidade urbana e outros empreendimentos, como novos bairros, hotéis, edifícios de escritórios, equipamentos públicos, etc.) – podemos buscar a certificação ambiental, priorizando a sustentabilidade da urbanização. Caso a opção seja por tal meta, aconselha-se avaliar a urbanização por meio de três grupos de análise de níveis de sustentabilidade: localização inteligente—conectividade urbana, desenho urbano—integração com a comunidade e, por fim, infraestrutura verde—integração com edifícios verdes.

Tendo um bom desempenho nestas áreas, a nova urbanização ou o retrofit urbano podem buscar a certificação LEED ND. Ou seja, nada é fácil, mas plenamente possível.

Há possibilidade de os projetos de arenas buscarem certificação LEED, assim como as áreas urbanas em seu entorno? O CTE tem atuado em projetos sustentáveis para a Copa 2014?

Sim é possível. O CTE está atuando nos projetos da arena Cuiabá e Mineirão, e ambas buscam certificação LEED. Indiretamente, temos atuado em empreendimentos que estão aproveitando as oportunidades do mercado imobiliário decorrentes deste evento (torres de escritórios, agências bancárias, hospitais, shopping centers, entre outros). Temos recebido também demandas de consultoria para certificação de bairros sustentáveis (novas urbanizações e revitalização de áreas já urbanizadas) LEED ND.

O Brasil teria condições de fazer uma ação coordenada de green building em todas as 12 cidades-sede da Copa?

Acredito que o Estado (Governo Federal) é o ente com maior condição de implementar esta ação, coordenando governos estaduais e municipais das cidades-sede dos jogos da Copa 2014. Isso não quer dizer que os governos estaduais e os municípios-sede dos jogos não possam atuar de forma autônoma neste assunto.

O LOC – FIFA fez sua parte em apontar como extremamente aconselhável que as arenas da Copa 2014 busquem certificações ambientais. Até onde sabemos, quatro das 12 arenas estão sendo concebidas e construídas buscando a Certificação LEED. No entanto, a certificação de arenas não será o bastante. As obras de mobilidade urbana e obras correlatas devem pautar-se também nesta meta, e somente o Governo Federal tem força para inserir esta meta de forma global.

É bom destacar que tanto o projeto como a execução deve seguir os requisitos de uma obra sustentável, e isso não implica necessariamente em aumento de custo da obra. A concepção e execução de uma obra sustentável estão muito mais ligadas a uma mudança de postura durante o projeto e a execução do que no investimento de grandes recursos adicionais, comparando-se a uma obra comum. Já os materiais e equipamentos que constituem estas obras de infraestrutura e edificações devem, sim, passar por uma seleção criteriosa, pensando na melhoria de sua performance ambiental durante sua operação (redução de consumo de energia e água, por exemplo).

Temos uma excelente ação do governo do Estado do Rio de Janeiro em conjunto com o GBC Brasil (Green Building Council Brasil) para as Olimpíadas de 2016, que poderia servir como referência. Em acordo firmado com o GBC Brasil, o Governo do Estado colocou como diretriz que todas as edificações relacionadas às Olimpíadas (Vila Olímpica, Equipamentos Esportivos, Centro de Mídia, etc.) deverão buscar certificação LEED. Pena que esta ação restringiu-se apenas a edifícios, não abarcou também a urbanização (LEED Neighborhood Development).

Talvez não haja mais tempo hábil para uma ação similar em relação aos empreendimentos da COPA 2014 com tanta abrangência, mas é louvável buscar esta meta pelo menos por adesão espontânea.

Quais as perspectivas que o CTE percebe para que o Brasil tenha todos estes investimentos em sustentabilidade realizados na Copa?

Temos a convicção de que o Brasil sairá transformado após a Copa 2014 e as Olimpíadas de 2016 em relação ao tema sustentabilidade.

Temos oportunidades concretas para implementar empreendimentos de alta performance ambiental e tornar ambos os eventos uma vitrine sustentável para o mundo. Não só das arenas e edifícios sustentáveis, mas das áreas urbanas, utilizando as arenas como porta de entrada destas ações.

As arenas da Copa 2014 podem disparar o início de uma requalificação urbana de importantes áreas das cidades-sede e servir de exemplo para outras requalificações urbanas futuras nas cidades brasileiras, pautadas pela sustentabilidade. Para tal, são necessários bons projetos, que tenham a sustentabilidade em seu DNA, uma competente gestão de custo, tempo e escopo, uma execução criteriosa, além de rigor no controle de gastos destas obras.

Temos as ferramentas e as oportunidades para alcançarmos a meta, basta organização, firmeza de propósito e transparência nas ações para a realização das obras para estes eventos.

* André Luis dos Santos Xavier é Consultor da Unidade de Sustentabilidade do CTE. Arquiteto-Urbanista pela PUCCAMP, Mestre em Arquitetura e Urbanismo na área de Planejamento Urbano e Regional pela USP e LEED AP. Consultor de sustentabilidade e certificação LEED®, desenvolvimento de estudos, diagnósticos e consultoria de sustentabilidade de empreendimentos imobiliários de pequeno, médio e grande porte.



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