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Encontro Internacional sobre Sustentabilidade na Construção
Evento | 04.06.2009


Com a presença de 230 profissionais (sendo, 107 de incorporadoras e construtoras, 65 de fornecedores de materiais e serviços, 41 de empresas de projeto e consultoria, 10 de entidades de classe, 7 de fundos de investimento e agentes financeiros), representando 12 Estados (BA, CE, DF, ES, MG, PA, PE, PI, PR, RJ, SC, SP), aconteceu, no último dia 4 de junho, o Encontro Internacional sobre Sustentabilidade na Construção, realizado pelo CTE.

Na abertura, Roberto de Souza, Diretor Presidente do CTE, posicionou os participantes com relação à importância deste Encontro, já que o movimento da sustentabilidade na construção tem se ampliado de forma considerável nestes últimos três anos, tanto no Brasil como nos demais países. Por ser um assunto ainda novo, Souza ressaltou o pouco conhecimento e as muitas dúvidas entre as empresas e os profissionais da cadeia produtiva sobre metodologias de implantação, custos envolvidos e percepção da sustentabilidade pelo mercado consumidor e pelos agentes financeiros, principalmente em como adotar a sustentabilidade como estratégia em seus negócios. O Encontro, portanto, é uma oportunidade para compreender o movimento da sustentabilidade no mundo e no Brasil e, principalmente, as estratégias, práticas e ações que o setor da construção vem adotando.

 

No primeiro painel, Sean Gilbert (Diretor Técnico do GRI – Global Reporting Initiative), Paulo Itacarambi (Vice-Presidente Executivo do Instituto Ethos) e Roberto de Souza (Diretor Presidente do CTE) debateram sobre sustentabilidade empresarial, considerando transparência, indicadores e mudanças necessárias para implantação da sustentabilidade pelas empresas da construção

 

Essas são as principais conclusões do Encontro:

1. Após o grande ciclo de desenvolvimento no mundo nas últimas décadas, a um custo social e ambiental significativo e predatório, as nações, a sociedade, as empresas, instituições governamentais e não-governamentais têm se dedicado a tecer um novo olhar para o futuro do planeta e da humanidade, perguntando-se quais as melhores soluções para que se possa alcançar um desenvolvimento harmônico, uma economia inclusiva e a preservação do meio ambiente. A sustentabilidade se configura hoje em um grande movimento social para enfrentar os desequilíbrios socioambientais e a desestruturação dos valores de coesão da sociedade, gerados pelas atividades humanas, especialmente as econômicas. A tendência mundial, portanto, é de crescimento da economia verde, inclusiva e responsável, com a integração das dimensões sociais, éticas e ambientais.

2. Neste sentido, tem aumentado a produção de relatórios de sustentabilidade no mundo, elaborados em todos os países, por todos os setores e pelas mais diversas organizações, sendo o Brasil, atualmente, o terceiro no mundo a criar esses relatórios. Os relatórios de sustentabilidade têm sido impulsionados pela conscientização ambiental das pessoas e das organizações, pela iniciativa dos investidores, pela necessidade de identificar riscos e novas oportunidades, pela percepção de que a maior transparência será contemplada e pela ação dos governos, que estão se mostrando mais ativos quanto à questão da sustentabilidade, principalmente porque hoje há uma cobrança da própria sociedade em relação a esta questão. Os desafios das empresas hoje para a produção e o uso do relatório de sustentabilidade têm sido o atendimento e a contemplação de todos os envolvidos em suas atividades, considerando os stakeholders externos, os stakeholders internos, o impacto público e os resultados internos.

3. O GRI – Global Reporting Initiative auxilia as organizações a mensurar seus desempenhos socioambientais e a produzir seus relatórios de sutentabilidade, estabelecendo tanto diretrizes básicas como diretrizes específicas para a avaliação de cada setor, além de indicadores de desempenho socioambiental, que devem ser revelados com transparência. Pelo seu caráter, o GRI acaba gerando uma rede mundial com os melhores indicadores e escolhas, provando que o relatório não é um produto, mas uma ferramenta e fruto de um processo que estimula as práticas e o desenvolvimento sustentável. A tendência é a disponibilização cada vez maior dos relatórios em sites e o desenvolvimento de softwares que possam integrar as todas as informações sobre indicadores e sustentabilidade, inclusive as financeiras, até que se produza, no futuro, um relatório integrado de sustentabilidade.

4. Por ainda não ter uma visão geral e integrada de suas atividades e de sua organização, o setor da construção, em todo o mundo, tem apresentado relatórios de sustentabilidade que tendem a focar questões mais técnicas quanto ao meio ambiente, considerando emissão de CO², materiais de construção, green building, consumo de água e energia, etc. Para complementar as lacunas existentes no setor, o GRI está formando e coordenando um grupo específico com empresas da cadeia produtiva do setor (para o qual o Brasil foi convidado), que deverá pesquisar, analisar e encontrar indicadores de desempenho sustentável para a construção.

5.
Com relação às empresas, observa-se que as mudanças para atingir a sustentabilidade ainda são periféricas, muitas se restringindo apenas à comunicação externa, sem alcançar a governaça corporativa nem a economia. Como a sustentabilidade envolve um conjunto de aspectos que devem ser pensados e trabalhados, é necessário aprofundar a gestão da sustentabilidade no meio ambiente da organização, analisando as práticas limitantes e fundamentando os valores empresariais com outros valores mais humanos: além de eficiência, produtividade, resultado, etc., devem ser considerados valores como ética e transparência, por exemplo.

Ainda no primeiro painel, Marco Antônio Fujihara (Diretor da Key Associados), Claudio Boechat (Coordenador do Centro de Desenvolvimento da Sustentabilidade da Construção da Fundação Dom Cabral), Ruth Goldberg (Diretora da GCA Consultoria em Responsabilidade Socioambiental) e Roberto de Souza (CTE) debateram sobre sustentabilidade empresarial, abordando as emissões de carbono, a formação de executivos e gestores de empresas e a responsabilidade social empresarial na cadeia produtiva da construção

 

6. Quanto à gestão da responsabilidade social empresarial, devem ser considerados conceitos do ponto de vista econômico (prosperidade, resultado econômico, retorno ao acionista, competitividade, transparência e governança corporativa), do ponto de vista social (dignidade humana, diversidade, direitos dos trabalhadores, envolvimento com a comunidade, postura ética e cultura local) e do ponto de vista ambiental (cuidado com o planeta, proteção ambiental, matriz energética, ecoeficiência, gestão de resíduos, economia de baixo carbono). Neste contexto, há muitos desafios para o setor da construção no Brasil quanto à gestão da responsabilidade social empresarial, já que o setor lida com grande déficit habitacional, mão-de-obra informal e sem formação profissional, corrupção e ilegalidade, consumo de recursos naturais e gestão de resíduos, poluição sonora e visual, impacto nas comunidades. Os resultados para a empresa que investe em responsabilidade social empresarial não são mensuráveis a curto prazo, mas ao longo do exercício das atividades da empresa, que inevitavelmente obterá diferenciação e ganhos futuros, como o desenvolvimento de nova visão estratégica, o comprometimento com o desenvolvimento sustentável, o engajamento das partes interessadas, a ética e transparência, as vantagens competitivas e liderança, a identificação e gerenciamento de fortalezas e fraquezas e de riscos e oportunidades, o ganho de imagem e reputação, o respeito e a confiança, a atração e retenção de talentos, a visão interdependente que gera inovação.

7. A agenda brasileira da sustentabilidade é vasta, deve atravessar gerações e não contempla apenas questões ambientais, mas também econômicas, culturais e sociais. Por isso, a educação voltada para a sustentabilidade requer uma mudança na maneira de ver o mundo, de forma que haja uma transformação efetiva para a sustentabilidade com uma visão integrada do mundo. No ensino brasileiro, a sustentabilidade é hoje um tema tratado em um módulo isolado, enquanto deveria ser o DNA de todas as disciplinas. No mundo empresarial, a sustentabilidade também é tratada como um aspecto isolado e há dificuldade em se entender sua mensuração, principalmente porque as ferramentas empresarias atuais levam a resultados pragmáticos e de curto prazo. Os executivos, portanto, devem também adquirir uma visão integrada dos negócios, inserindo o “sujeito” no contexto da natureza, da sociedade e do mercado, já que o mundo sustentável contempla um sujeito sustentável. O assunto “sustentabilidade” deve ser emoldurado pela empresa, com o desafio em transformar algo pragmático em ações efetivas, já que o novo modelo apresenta novos valores, ou seja, a liderança globalmente responsável é aquela que trabalha com valores como justiça, humanidade, liberdade, responsabilidade, tolerância, solidariedade, honestidade e transparência. Os principais desafios das lideranças dentro das empresas quanto à sustentabilidade serão: incentivar a educação interna dos colaboradores, pensar e agir em termos globais, ampliar o propósito da empresa e manter a ética. Como o setor da construção ainda está limitado em sua visão da sustentabilidade, considerando apenas os materiais e as técnicas sustentáveis, programas de formação de executivos do setor da construção podem ser implantados com o foco no “ciclo do empreendimento sustentável”, inserindo a gestão responsável neste ciclo.

8. Quanto às emissões de carbono, observa-se que estão sendo feitos inventários por várias organizações da construção e, aos poucos, o setor vai descobrindo e identificando suas emissões. Ao contrário do que se imagina, em um obra típica predial, as emissões de carbono durante a construção são pequenas, na ordem de 3 a 4%, sendo que o grosso das emissões acontecem a partir da entrega das chaves aos usuários. Por isso, é necessário pensar integralmente na cadeia produtiva da construção, desde o projeto, novos materiais, construção, uso e operação, para poder para medir realmente as emissões e pensar no futuro. Para os inventários, de uma forma geral, são considerados três escopos: (1) emissões diretas (processos pertencentes à empresa, ou que tenham influência direta no processo produtivo; no caso da construção, máquinas e equipamentos, por exemplo); (2) emissões indiretas (consumo de energia elétrica gerada pelas concessionárias fornecedoras do SIN); e (3) emissões indiretas (viagens de negócios de funcionários e terceirização de atividades centrais; no caso da construção, resíduos e logística de transporte, por exemplo). Como o setor da construção é agente de transformação, terá que se adaptar às tendências atuais quanto à sustentabilidade e às emissões, considerar sua reputação e ajustar sua receita, implantando uma política de gestão de emissões que contenha algumas estratégias essenciais, como análise do fornecedor (se tem práticas sustentáveis, possui inventário de emissões, se utiliza madeira certificada), eficiência energética e gestão de resíduos.


 
No segundo painel, Milene Sabbag Abla Scala (Coordenadora da Aflalo&Gasperini Arquitetos), Carlos Borges (Diretor da TARJAB e Superintendente do Comitê Brasileiro de Construção Civil da ABNT) e Roberto de Souza (CTE) debateram sobre construção sustentável, considerando a arquitetura, a norma de desempenho de edificações e a sustentabilidade


9. A arquitetura sustentável, ao contemplar também a nova visão de mundo, que leva em consideração a interação entre as áreas econômicas, ambientais e sociais, muda sua metodologia de trabalho, já que há de se considerar muita pesquisa e soluções, além de uma consultoria externa para os projetos que visam, por exemplo, as certificações LEED dos empreendimentos. O panorama atual para o desenvolvimento de uma arquitetura sustentável no Brasil traz os seguintes desafios: necessidade de simulações de projetos, disponibilidade de programas específicos, informações de avaliação pós-ocupação, melhor habilidade para demonstrar questões financeiras, aprimoramento da especificação de produtos, tempo maior para desenvolvimento do projeto, desenvolvimento de políticas públicas, necessidade de tomar decisões de forma antecipada, habilidade integrada de equipe, conhecimento de novas tecnologias e maior habilidade técnica, investimento em estudos e interação com o meio acadêmico, intercâmbio de informações com outros países, comprometimento com aspectos ambientais, pois a sustentabilidade deve entrar como um valor e não como um custo extra.

10.
As empresas líderes de mercado estão sempre buscando se diferenciar e atender, de forma antecipada, as demandas de mercado. Existem vários tipos de conceitos e sistemas de certificação para um empreendimento sustentável hoje, mas, independente do sistema adotado, um empreendimento sustentável deve levar em consideração: a sustentabilidade do espaço (redução dos impactos da implantação do edifício no entorno); sustentabilidade dos materiais (utilização de materiais que causam menos impacto no meio ambiente), a eficiência energética (redução da demanda de energia e impactos ambientais causados pela criação de novas usinas hidrelétricas ou de outro tipo), qualidade ambiental interna (melhoria da qualidade do ambiente interno para o bem-estar dos usuários) e racionalização do uso de água (adoção de sistemas que reduzam o consumo de água potável no edifício).

11. Hoje, quanto à normalização e ao sistema regulatório da construção civil no Brasil, todo setor opera dentro de um ambiente legal. O sistema regulatório para o setor formal da construção civil contempla leis, portarias e normas técnicas, todas com uma função orientadora e purificadora do mercado e de garantia de níveis socialmente aceitos de saúde, segurança e bem-estar dos usuários de imóveis. A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é o fórum brasileiro de normalização, organizada através de Comitês Brasileiros. O CB 02 (Comitê Brasileiro da Construção Civil) tem hoje um acervo composto por 943 normas de execução de serviços, de ensaios e controle tecnológico, de manutenção, de projeto e especificações e de normas gerais para viabilidade e contratação. Embora haja este acervo, é necessário desenvolver a cultura de cumprimento de normas, baseadas em desempenho e conscientização setorial. Quanto à sustentabilidade, ela não terá lógica se não houver um nível de desempenho, pois o desempenho é o instrumento para o atendimento dos requisitos ambientais. Desempenho e sustentabilidade têm, no setor da construção, que ser tratados no nível do projeto, para que desde o início se conceba para o desempenho, sendo que é necessário padronizar a forma de apresentação do desempenho de elementos e componentes de construção fabricados no Brasil. O setor precisa se organizar mais rapidamente para uma autorregulamentação sustentável e elaborar normas técnicas sustentáveis, além de criar uma nova legislação sobre responsabilidades na construção civil.



William Vitor (Gerente Geral de Obras da Trisul S.A), Joyce Carlo (Pesquisadora Doutora da Universidade Federal de Santa Catarina), Marisa Costa Duarte Lanna (Forluz) e Roberto de Souza (CTE) debateram cases sobre sustentabilidade em canteiros de obras, etiquetagem de edifícios do Procel e construção sustentável


12. O PROCEL-Edifica é uma das vertentes do PROCEL (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica), coordenado pela ELETROBRÁS, com participação de outros agentes, como o Ministério de Minas e Energia, universidades federais e o Comitê Gestor de índices e Níveis de Eficiência Energética (CGIEE), criado durante o apagão com o intuito de definir os índices de eficiência a serem alcançados por equipamentos e edificações. A etiquetagem energética de edifícios proposta pelo PROCEL prevê que toda edificação, seja residencial, comercial ou pública, será classificada de acordo com o nível de eficiência energética alcançado no projeto. Três itens da edificação serão avaliados: sistema de iluminação, sistema de condicionamento de ar e envoltória. Para cada um desses itens, existem pré-requisitos e recomendações para alcançar classificação de “A” a “E” e, para cada item, será atribuído um peso, de modo que a média ponderada das três etiquetas irá determinar a classificação final do prédio. O selo será um forte instrumento de mudança de mercado, principalmente na maneira de projetar, pois, para alcançar um elevado nível de eficiência, é necessária maior integração entre os projetistas, o que não é muito comum hoje em dia. Atualmente, pouquíssimas incorporadoras preocupam-se com o nível de eficiência energética de seus empreendimentos e, por isso, o mercado da construção tem visto o selo como um instrumento de medida que agregará valor às edificações. Por se tratar de uma lei, muitos fabricantes de materiais e equipamentos terão que fazer adaptações em seus produtos, o que será muito sadio, pois aumentará a competitividade e a qualidade dos produtos finais. No caso das edificações, os benefícios serão ainda maiores, pois o indicador de eficiência revelará o nível de conforto térmico alcançado, ou seja, o consumidor final será o maior beneficiado.

13. A construção civil é responsável por grandes impactos socioambientais e, por isso, a sustentabilidade na construção civil passa necessariamente pelos canteiros de obras das empresas construtoras, que deve ser projetado e construído de forma que leve em consideração o menor impacto possível no terreno, no seu entorno ou vizinhança. O Programa de Sustentabilidade de Obras estabelece um padrão de sustentabilidade para as obras, através da implantação de um sistema de avaliação e de monitoramento do desempenho das obras, de modo a direcionar as estratégias e ações de engenharia das empresas construtoras para esse fim. Baseado em três documentos gerenciais e de apoio (Norma de Referência, Plano de Sustentabilidade das Obras e Relatórios de Sustentabilidade das Obras), o PSO é organizado por uma série de requisitos e um sistema de pontuação, que abrange os seguintes aspectos da sustentabilidade das obras: uso racional da água na obra, uso racional da energia na obra, materiais e compras sustentáveis, gestão de resíduos das obras, controle do ruído das obras, gestão das emissões nas obras (atmosféricas, CO², materiais particulados), responsabilidade social na obra, comunidade, educação ambiental no canteiro de obras e terreno sustentável.


 
Além de assistirem às nove palestras técnicas e debateram os principais temas sobre sustentabilidade, os participantes aproveitaram o coffee break para trocar ideias e experiências

 


 
A equipe da Unidade de Sustentabilidade do CTE esteve presente no Encontro

 

 





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