Certificação LEED para prédios existentes
Notícia | 14/07/2010
Fonte: AECweb
Certificação LEED EB O&M é destinada a garantir um bom desempenho do edifício através do monitoramento de gastos, resultando em economia e menos agressão ao meio ambiente.
O número de prédios novos construídos sob a égide da sustentabilidade vem crescendo substancialmente no Brasil. Essa nova tendência, que beneficia não só o meio ambiente, como também todos os agentes sociais envolvidos no projeto, parece estar igualmente atraindo o interesse dos prédios já existentes. Privados, a exemplo do McDonalds, ou públicos como a Estação USP Leste da CPTM, cada vez mais buscam se modernizar para reduzir custos de operação e valorizar o imóvel.
Visando certificar a adequação dos prédios existentes aos princípios da sustentabilidade, o USGBC (United States Green Building Council) lançou, em 2009, o LEED EB O&M (Leadership in Energy and Environmental Design - Existing Buildings - Operation and Maintenance), certificação destinada a avaliar as questões de uso e manutenção dos edifícios.
Para obter o LEED EB O&M, os prédios devem atender a pré-requisitos e créditos que geram pontos e os classificam entre os quatro níveis da certificação – certificado, prata, ouro e platina.“Os pré-requisitos são relacionados a níveis mínimos de eficiência energética, consumo de água, não utilização de CFC nos sistemas de condicionamento de ar e outros. Os créditos premiam medidas como a implantação de comissionamento, coleta seletiva de resíduos, compras sustentáveis e limpeza verde”, explica David Douek, LEED AP e diretor de desenvolvimento da OTEC.
CRESCIMENTO
Segundo Marcos Casado, diretor técnico do GBC Brasil, o LEED EB O&Mé uma das certificações que mais cresce, não só no Brasil, como em todo mundo. “O parque construído supera, e muito, o tamanho do parque em construção. Isso se torna uma vantagem para a certificação EB, que tem um campo vastíssimo para crescer”, explica Casado. Duas das mais importantes consultorias nos processos de obtenção de certificados LEED, a OTEC e o CTE, concordam com Casado. “Embora a certificação EB O&M só tenha entrado em vigor no ano passado, o número de projetos com vistas a obtê-la supera as expectativas”, explica Douek, da OTEC.
Para fomentar ainda mais a busca pelo LEED, o GBC Brasil realiza palestras e cursos em diversas cidades, disseminando o conceito da certificação. “Com esses eventos, nós buscamos também estimular o levantamento de dados sobre o uso e manutenção dos prédios, questão extremamente importante para quem quer a certificação EB. Hoje, os edifícios não se preocupam em conhecer a origem de seus gastos e, sem essas informações, não há como propor soluções para resolver, ou pelo menos, minimizar o problema”, acrescenta Casado.
Outro fator importante nesse processo de certificação é a capacitação de profissionais especializados que prestam consultoria aos prédios que almejam obter o LEED EB O&M. Chamados LEED AP’s, esses profissionais – geralmente arquitetos e engenheiros – passam por prova de qualificação antes de se tornarem consultores LEED. Para aqueles que querem se aperfeiçoar na certificação EB O&M, o GBC Brasil promove um curso sobre o assunto, no qual ensina a aplicar as ferramentas e a entender como funciona o sistema da certificação. O curso, que acontece em várias cidades brasileiras, é usado como base para a avaliação que credita o profissional como um consultor LEED para prédios existentes.
VANTAGENS
O grande atrativo da certificação EB é garantir um bom desempenho do edifício através do monitoramento dos seus gastos, resultando em economia financeira e menos agressão ao meio ambiente. Aliadas à valorização do imóvel, essas são as principais vantagens que os proprietários vêem na certificação. “A redução de custo de operação é um fator de valorização do imóvel perante condôminos e potenciais locatários, tornando-se poderosa ferramenta de negociação para a locação ou venda de uma unidade ou edifício, quando certificado”, comenta Douek.
A opinião é compartilhada por Anderson Benite, diretor de Sustentabilidade do CTE. Para ele, os prédios sustentáveis apresentam uma vantagem sobre aqueles que não o são: por reduzir os custos de operação e manutenção, esses edifícios conseguem oferecer condomínios em valores bem mais baixo dos que o mercado está acostumado a pagar. Dessa forma, a adequação de prédios antigos visando a certificação EB O&M se torna, também, uma questão de competitividade. Esse fator tem motivado principalmente os edifícios comerciais a obter a certificação EB, embora existam casos emblemáticos, como o da Estação USP Leste, da CPTM, que comprovam a ampla aceitação e o perfil variado dos edifícios certificados.
Neste aspecto, o GBC Brasil não cria nenhum obstáculo: qualquer segmento de edifício pode obter o LEED EB. “A única exigência feita pelo GBC é que o prédio tenha, no mínimo, dois anos de operação, para que possa se caracterizar como um edifício existente”, complementa Casado. Critério tão importante quanto a economia energética e o uso racional da água: o prédio candidato à certificação deve economizar, no mínimo, 20% de energia e 10% de água.
Para alcançar esses índices mínimos estabelecidos, muitas vezes se torna necessário realizar ajustes na infraestrutura dos edifícios, tarefa considerada como a mais desafiadora pelos LEED AP’s. “Normalmente, o que dá mais trabalho são os itens de eficiência energética, por demandarem melhorias na tecnologia e na operação do prédio, que representam uma parte bastante custosa do projeto”, comenta Benite. Os edifícios multiusuários também causam impasse na hora da certificação. “Nesses prédios, para que a certificação ocorra, todos os ocupantes devem concordar em incorporar as políticas sustentáveis, algo que muitas vezes não ocorre e impossibilita que o prédio goze dos benefícios da certificação”, esclarece Casado.
ADAPTAÇÕES
Uma das críticas mais comuns feitas ao LEED diz respeito a sua origem: muitos acreditam que, por ter sido criada nos Estados Unidos, a certificação não atende completamente a realidade brasileira. Segundo Benite, essa é uma visão bastante distorcida, pois, embora norte-americano, o LEED utiliza bases internacionais em suas normas e referências, e as metas propostas pela certificação podem ser alcançadas em qualquer lugar do planeta, como a economia de água e energia. “O LEED não define as tecnologias que devem ser usadas, mas sim os resultados que devem ser alcançados”, completa o consultor do CTE.
Mesmo assim, o GBC Brasil resolveu avaliar o modelo americano e propor
algumas adaptações. “No momento, o comitê técnico do GBC Brasil está concluindo a avaliação da certificação EB e propondo pequenas mudanças, como a criação de cinco novos créditos. O LEED EC, outra modalidade de certificação, também passou por essa adequação e teve um percentual bem baixo de alterações: cerca de 10% dos créditos foram adaptados e seis novos foram criados. Nós acreditamos que, tal como aconteceu com LEED EC, o modelo atual não sofrerá nenhuma mudança drástica”, explica Casado.
Para Douek, a certificação é um processo vivo que vai sofrendo alterações à medida que o mercado evolui. “No Brasil, a mudança dos aspectos culturais fará uma grande diferença. As questões normalmente levantadas referentes às diferenças climáticas, disponibilidade de materiais e soluções técnicas vem sendo pouco a pouco resolvidas com a entrada de novos produtos, serviços e qualificação de profissionais”, observa. Benite concorda com as mudanças que estão sendo propostas pelo GBC Brasil, mas vê nos entraves do modelo atual uma possibilidade para o desenvolvimento de um mercado até então inexistente. “Às vezes, o mercado brasileiro não oferece produtos que atendam a todos requisitos da certificação. Mas esse também é um dos objetivos do LEED: fomentar a adequação desses produtos às exigências da sustentabilidade”, complementa o engenheiro.
COLABORARAM PARA ESTA MATÉRIA
David Douek - LEED AP, diretor de desenvolvimento da OTEC, empresa parceira da consultoria americana, Architectural Energy Corporation, que coordena a equipe de consultoria LEED e a Equipe de Assistência a Projetos Sustentáveis nos projetos de Certificação LEED. Formado em 1997 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo é, também, Administrador de Empresas pela Universidade Mackenzie, 1995.
Marcos Casado - Engenheiro civil com especialização em Administração e Gestão Ambiental. Como Gestor de obras por sete anos no Banco ABN AMRO Real, desenvolveu e implantou o PPICS - Programa Prático para Implantação da Construção Sustentável. Atualmente é gerente técnico do Green Building Council Brasil, onde dissemina o conceito da construção sustentável e da certificação LEED em todo o Brasil, ministrando cursos e palestras de assuntos relacionados ao tema.
Anderson Benite - Diretor de Sustentabilidade do CTE – Centro de Tecnologia de Edificações. Engenheiro Civil e Mestre pela Escola Politécnica da USP. MBA Executivo pelo Ibmec e LEED-AP. Especialista em Sustentabilidade e responsável pela coordenação de mais de 80 projetos de consultoria em Green Building no Brasil.
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