BRASÍLIA — Mesmo com o crescimento mais lento do que o esperado, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que novos cortes da taxa básica de juros (Selic) devem ser feitos com “parcimônia”. A expressão voltou a constar na ata da reunião do colegiado na semana passada, divulgada hoje, quando os diretores resolveram, por unanimidade, diminuir os juros básicos de 9% ao ano para 8,5% ao ano. No documento, o Banco Central (BC) alegou que a crise externa abre espaço para a queda da inflação.
“Nesse cenário, a projeção para a inflação de 2012 se reduziu em relação ao valor considerado na reunião do Copom de abril e se encontra em torno do valor central de 4,5% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)”, afirmou a ata.
O documento disse ainda que não trabalha com a possibilidade de “eventos extremos”, ou seja, com a saída da Grécia do Euro. E, em meio às discussões se seria o momento de reduzir a meta da economia que o governo brasileiro faz para pagar juros da dívida pública para abrir espaço para mais gastos para estimular a economia, o BC ressaltou que espera o cumprimento da meta cheia para 2012, 2013 e até 2014.
O cenário atual descrito pelo Copom contempla um aumento da incerteza política na Europa e mais volatilidade nos preços do petróleo. Os riscos para estabilidade financeira global continuam altos porque muitos bancos estão expostos com papéis de países com desequilíbrios fiscais em suas carteiras. O Copom avisou que a crise chega ao país por canais como moderação da corrente de comércio, dos investimentos e condições de crédito mais restritivas. E afeta diretamente a confiança de empresários.
“O processo de moderação em que se encontrava a economia brasileira já no primeiro semestre do ano passado foi potencializado pela fragilidade da economia global”, disseram os diretores.
Por causa disso, o cenário central que trabalham os integrantes do Copom é de inflação em torno da meta em 2012. Eles disseram que a inflação acumulada em doze meses, que começou a recuar no último trimestre do ano passado, tende a seguir em declínio. E isso contribuirá para melhorar as expectativas dos agentes econômicos, em especial as dos formadores de preços.
O Copom voltou a se defender de ataques sobre o possível abandono das metas de inflação — ao aceitar índices acima da meta para o IPCA de 4,5% neste ano — para priorizar o crescimento. No mês passado, o BC foi alvo de críticas de que se submetia constantemente às vontades da presidente Dilma Rousseff e, por isso, continuava a derrubar os juros.
“Taxas de inflação elevadas não trazem qualquer resultado duradouro em termos de crescimento da economia e do emprego, mas, em contrapartida, trazem prejuízos permanentes para essas variáveis no médio e no longo prazo”, diz o comitê.
Para os diretores do BC, por outro lado, o consumo das famílias tende a continuar robusto por causa do crescimento da renda e a expansão moderada do crédito nos próximos semestres. A atividade doméstica continuará a ser favorecida pelas transferências públicas, bem como pelo vigor do mercado de trabalho, que se reflete em taxas de desemprego historicamente baixas e em crescimento dos salários, apesar de certa acomodação na margem.
O Copom afirmou que o Brasil passou por mudanças estruturais significativas nos últimos tempos: os juros necessários para conter a inflação estão num patamar mais baixo, houve redução dos prêmios de risco, estabilidade macroeconômica e de avanços institucionais. Mercados financeiros e de capitais estao mais maduros e o Brasil mostra superávits primários consistentes com a manutenção de tendência decrescente para a relação entre dívida pública e PIB.
“Para o Comitê, todas essas transformações caracterizam-se por um elevado grau de perenidade – embora, em virtude dos próprios ciclos econômicos, reversões pontuais e temporárias possam ocorrer – e contribuem para que a economia brasileira hoje apresente sólidos indicadores de solvência e de liquidez.”
